O JOÃO-DE-BARRO

 O JOÃO-DE-BARRO

 

“Êta, mundo grande é esse nosso! Criado por Deus com tanto ‘ismero’, com tamanha variedade e ‘sabiduria’” – disse Tonico a Maneco, enquanto ambos fitavam Rosinha com olhar compenetrado. Era um olhar cheio de admiração, por verem-na mais uma vez, e ao mesmo tempo um olhar de ternura por reverem o pequeno que repousava entre seus braços.

 

No entanto, havia algo a mais no semblante de Maneco. Escapava do seu olhar – além da admiração por Rosinha – um ar pensativo, acompanhado de comedido sofrimento. Mas ainda assim, era um olhar amável pelo mais novo morador que chegara.

                            

“Verdade! Êta, mundão...  casarão que tem de tudo nele. Casa grande... cheia de ‘furmusura’ que dá até gosto de ver e de conhecer” – completou Maneco, que olhava para Rosinha, no momento em que pensava no pequeno joão-de-barro, e em tantos outros Joões do mundo inteiro...

 

De todos os recantos que há na pacata cidade da Consolação, o lugar mais visitado pelos irmãos Tonico e Maneco é a praça da cidade, onde vive Rosinha, nome carinhoso dado ao milenar jequitibá-rosa, cuja altura é estonteante, e que abriga – não há muito tempo – , uma casinha de joão-de-barro entre seus milhares de folhas e flores, que vestem seus fortes braços. A casinha do pequeno pássaro é tão diminuta que quase se perde entre os majestosos ramos de Rosinha

 

O estreito ninho, cuidadosamente edificado em um dos braços de Rosinha – braço que fica mais próximo do chão, e à vista dos observadores atentos – despertava em Maneco particular reflexão.

 

Mas, afinal, no que pensava Maneco, ou melhor, o que tanto inquietava João Manoel ao contemplar a “casa de barro do joão”, e que fazia com que se lembrasse de seu morador ilustre e de tantos outros Joões que há no mundo inteiro?

 

Maneco, à semelhança de incontáveis filhos desta e de outras pátrias, jamais chegou a conhecer seus pais biológicos. Nosso personagem fora abandonado instantes depois de vir ao mundo à porta da casa de Dona Candinha, dadivosa mãe, que criou cincos filhos nascidos de sua própria madre e também a João Manoel, enxertado em seu coração, como Dona Candinha sempre costuma dizer a respeito do seu filho caçula.

 

João Manoel, assim que chegou aos braços de Dona Candinha, passou a repartir o peito de sua madre adotiva com Marcos Antônio, o Tonico, que até então era a ponta-de-rama daquela que Maneco logo aprenderia a chamar de mãe. Talvez, por isso, Tonico e Maneco – irmãos de peito – sejam tão ligados um ao outro.

 

Mesmo sem dizer palavra, Maneco esconde na alma certa dor por ter sido abandonado pelos pais que jamais conhecera. Entretanto, essa dor que vez ou outra aperta o coração de João Manoel não é maior do que o amor que este tem por Dona Candinha.

 

Maneco sabe, como poucos outros Joões o sabem, o que é ser acolhido com um amor tão grande ou ainda maior do que a dimensão dos braços de Rosinha, que também acolheu, sem nada perguntar, o pequeno “joão” e sua casinha de barro.

 

Naquele dia, quando olhou para Rosinha e para a casinha de barro mais uma vez, Maneco pensou naquele pássaro, o pequeno “joão”, e em tantos outros Joões do mundo inteiro...

                                      

Maneco pensou que, à semelhança do barro, que é frágil, quebradiço e passageiro, ele e todos os outros Joões do mundo inteiro também são frágeis, fracos e mortais.

 

Maneco pensou que, do modo como o joão-de-barro encontrou abrigo nos braços de Rosinha, todo “joão” deveria encontrar amor nos braços de alguém.

 

Ele pensou... Ah, como pensou!!!

 

Pensou que, à semelhança do pequeno “joão”, (Maneco pensou, mas também comparou...), que construiu a sua casa entre os portentosos braços de Rosinha, ele também encontrara nos braços de Dona Candinha uma casa-feita-de-amor, que não se quebra, que não se desfaz e nem se acaba com o tempo.

 

Maneco se via no “joão” e em sua frágil casinha de barro.  Ele também sabia que era um dos milhares de milhares de filhos abandonados no mundo e que foram acolhidos – sem perguntas ou cobranças – pelas Rosinhas e Candinhas espalhadas por esta terra.

 

Filhos abandonados por pais e mães; filhos que foram acolhidos pelos braços das Candinhas. Braços que não passam de extensões do amor de outros braços.

 

Sim... outros braços infinitamente maiores do que os de Rosinha e infinitamente mais calorosos e amáveis do que os braços de Dona Candinha. Braços que acolhem os filhos que foram abandonados e os filhos que não poucas vezes abandonaram a si mesmos na ilusão de acharem que podiam caminhar sozinhos e que, frustrados, resolveram voltar...

 

Outros braços... os braços dAquele que embora não possa ser visto, pode ser notado; os braços dAquele que ama por ser o próprio Amor.

 

Os braços dAquele que recebe, acolhe e que diz: “— Acaso, pode uma mulher esquece-se do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti.”          

 

Josué Argôlo.                                                                                                        

 

 

 

 

Avalie este item
(1 Votar)

Bispo Sênior
Alexandre Rodrigues

Bispos
Eleilson Ferreira
Giovani Mantovani
Josué Argôlo
Marcos Oliveira
Moisés Gonçalves
Renato Sena
Vinícius Batista

Outros Links