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Muito se tem discutido acerca dos textos veterotestamentários que trazem as marcas da violência. Tal discussão não é nova, antes, desde os tempos dos pais da igreja, séc. II, tem-se debatido esse assunto. A grande questão, epicentro de toda controvérsia, consiste nas seguintes perguntas: 1) É Deus o autor do mal? 2) As maldades praticadas em nome de Deus, nas páginas do Antigo Testamento (doravante chamado de AT), são por ele ordenadas e ratificadas? 3) Estaria Deus por detrás de todos os homicídios, fratricídios, genocídios, assim como de todas as formas de penas cruéis, impostas pela lei de Moisés? 4) Como explicar a inspiração das Escrituras do AT, caso a resposta para as três primeiras perguntas seja negativa?

Bem, para responder a essas questões, quero primeiramente apresentar minhas bases hermenêuticas, com o fim de justificar as conclusões a que chegarei.

Os escritos bíblicos do AT são como cacos de vidros, de toda e variada espécie, que, num primeiro momento são diferentes e antagônicos, gerando incompatibilidade e incongruências entre si. O mesmo Deus que ordena “não matarás” é o mesmo que “manda” matar um homem, porque este catava lenha em dia de sábado. Deus condena o sacrifício humano, praticado pelos pagãos, que ofereciam seus filhos a Moloque, mas “aceita” o sacrifício da filha de Jefté. Deus ordena que se ame ao próximo como a si mesmo, mas “autoriza” a escravidão e o espancamento, com pau, dos escravos, pelos seus senhores. (Só para citar alguns exemplos).

Diante disso, é preciso encontrar a unidade do pensamento divino, para não se cair em contradição. É mister, pois, que o leitor das Escrituras reúna os cacos e faça um belíssimo vitral, a fim de obter a visão do todo, e não ser enganado com as partes isoladas, que nada definem. Uma vez reunidos (os cacos), já não se tem partes, mas uma unidade de sentido, significativa, capaz de revelar a Deus, verdadeiramente.

A interpretação das Escrituras deve partir do maior para o menor. Ou seja, as partes é que deverão ganhar sentido, a partir do todo, e não o contrário. Senão, o todo ficará comprometido por causa da defesa das partes, que não definem, em si mesmas, o todo. Somente na visão do todo Deus é revelado plenamente. Tentar ver Deus nos “cacos”, ignorando o “vitral”, leva-nos a caricaturar a imagem do Santo, pois reduz o Eterno a uma fração, a qual é incapaz de definir o Infinito.

A função primordial das Escrituras é a revelação de Deus (Jo 5:39, 46; At 28:23; Rm 1:19-20). Portanto, o princípio das partes e do todo significa, na prática, a necessidade de se estabelecer, primeiramente, as premissas referentes ao caráter imutável de Deus – o cerne das Escrituras –, a partir do qual, as partes deverão ser interpretadas. Deus é absoluto; os eventos que constituem a história prosaica e temporal dos filhos de Israel e das nações são relativos.

Peço que leia, então, cada ponto que a seguir apresentarei, sem saltar nenhum, até o fim, para que nenhuma brecha seja deixada no entendimento. Acompanhe-me.

  1. QUEM É DEUS SEGUNDO AS ESCRITURAS:
  1. Deus é luz, e nele não há treva nenhuma (1Jo 1:5). Ora, vede. Essa declaração traz profundas implicações, que não raras vezes são ignoradas, a saber:
  1. Afirmar que Deus é luz e que nele não há treva nenhuma gera uma dicotomia inconciliável. Em Deus não existe, e NÃO PODE HAVER, traço algum, ou mancha, ou presença, das trevas. De sorte que, tão logo eu assumo essa verdade, não posso conferir a Ele, ENQUANTO FONTE, nada que macule a sua natureza. Tudo que procede das trevas, EM NATUREZA, não pode provir da Luz. Por isso está escrito que “é impossível que Deus minta” (Hb 6:18), pois a mentira é filha das trevas (Jo 8:44). Tampouco pode a Luz usar as trevas a seu favor, como instrumento de sua vontade diretiva, aliando-Se a ela para fins de seu propósito, porque Deus não pode negar a Si mesmo (2Tm 2:13).
  1. O que são as trevas segundo as Escrituras? Ora, é tudo aquilo que não é luz. Isto é, aquilo que não é Deus, e, portanto, diabólico, como o próprio nome sugere pelo prefixo die: separação. Tudo pois que nasce da separação da Luz é trevas. João, em sua primeira epístola, afirma que o ódio e a morte são produtos das trevas, e, por isso, não pode provir de Deus. Eis a razão e o argumento joanino, irrefutável, de que, AQUELE QUE DIZ PERMANECER NELE DEVE ANDAR COMO ELE ANDOU. Afinal, como pode alguém afirmar que está n’Ele – que é luz, amor e verdade –, e ao mesmo tempo odiar a seu irmão, e chegar ao auge da amargura e MATAR o seu irmão? (1Jo 2:6-11). Estar na luz e, ao mesmo tempo odiar e matar, é IMPOSSÍVEL, pois Deus é luz, e nele não há treva nenhuma. Se está em Deus não há ódio; se não há ódio, não há vingança; se não há vingança não há morte, enquanto ato de execução.

Matar, enquanto ato de execução, segundo João, é obra do diabo, o qual é assassino desde o princípio (Jo 8:44). Todo assassino não tem a vida eterna permanente em si (1Jo 3:15). Por isso Deus não pode matar, porque Deus é luz.         

Mas o que dizer das palavras de Isaías, que disse que Deus criou as trevas (45:7)? Ora, isso é uma questão conceitual e filosófica. As trevas não existem a priori, senão pela ausência da luz. As trevas só podem existir enquanto possibilidade. É no afastamento da luz que aparecem as trevas, as quais, não são, enquanto há a presença da luz. Isso explica por que em DEUS NÃO HÁ TREVA NENHUMA, NEM TAMPOUCO PODE HAVER. Pois, se Deus é a própria luz, como pode haver nele trevas? A não ser que Deus pudesse se afastar dele mesmo. Nesse caso, ele não seria a luz, mas tê-la-ia como mero acessório, do qual poderia se desvencilhar. Se assim fosse, Deus estaria sujeito a cair, afastando-se da Luz, o que Lhe é impossível.

O mesmo acontece à morte. Ela não existe como um ente ou coisa semente. Morte é ausência de vida. Quando o homem pecou, ele morreu (Ef 2:1). Mas, como assim ele morreu, se continuou vivo? Desta proto-revelação, temos o conceito de morte, enquanto afastamento de Deus, em sua consciência. O resultado inevitável o levou a um morrer constante, que é a morte progressiva do corpo. Quando esta acontece cabalmente, chegando ao seu clímax, a vida ausenta-se do corpo. Com isso, morre-se somente o corpo, não a alma, que continua a subsistir em Deus, noutro plano. Quando, por fim, todo o Universo tiver sido reconciliado com o Criador (Ef 1:10), isto é, retornado à fonte da Vida, a morte terá sido vencida, cumprindo assim a palavra que foi dita: “tragada foi a morte pela vitória” (1Co 15:54).

De sorte que, o afastar-se da vida gera a morte, e o afastar-se da Luz gera as trevas. Nesse sentido, Deus não pode matar, porque em Sua natureza ele é a própria Vida (Jo 1:4; 14:7; 1Jo 1:3; 5:20).         

  1. Deus é amor (1Jo 4:8). Esta é outra revelação da natureza santa de Deus que nos leva, inevitavelmente, a rejeitar qualquer barbárie praticada ou ordenada por Ele. Se Deus é o mesmo ontem, hoje e eternamente (Hb 13:8), EM QUEM não pode haver variação ou sombra de mudança (Tg 1:17), devo interpretá-lO, quanto a Ele mesmo, não aos homens, como sendo e agindo em conformidade com o seu caráter de amor. Ora, “o amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus próprios interesses, não se exaspera, não se ressente do mal, não se alegra com a injustiça... tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Co 13:4-7). Como, pois, poderia eu entender que este Deus-amor pudesse ordenar tais coisas:
  1. “Se alguém ferir a seu escravo ou a sua escrava com pau, e este morrer debaixo de sua mão, certamente será castigado; mas se sobreviver um ou dois dias, não será castigado; PORQUE É DIREITO SEU” (Ex 21:20-21);
  1. “por isso assim diz o Senhor Deus: Eis que eu, sim, eu estou contra ti; e executarei juízos no meio de ti aos olhos das nações. E por causa de todas as tuas abominações farei sem ti o que nunca fiz, e coisas às quais nunca mais farei semelhantes. Portanto OS PAIS COMERÃO A SEUS FILHOS no meio de ti, e OS FILHOS COMERÃO A SEUS PAIS...” (Ez 5:8-10);
  1. “Disse, pois, o Senhor a Moisés: Toma todos os cabeças do povo, e ENFORCA-OS AO SENHOR diante do sol, para que a GRANDE IRA DO SENHOR se retire de Israel” (Nm 25:4);
  1. “Disse o Senhor a Josué: Não os temas, pois amanhã a esta hora eu os entregarei TODOS MORTOS diante de Israel. Aos seus cavalos CORTAREIS OS TENDÕES DE SUAS PERNAS, e a seus carros queimarás a fogo” (Js 11:6);
  1. “Feliz aquele que pegar teus filhos e ESMAGÁ-LOS CONTRA A PEDRA” (Sl 137:9);
  1. “E dize à terra de Israel: Assim diz o Senhor: Eis que estou contra ti, e tirarei a minha espada da bainha, e exterminarei do meio de ti O JUSTO e O ÍMPIO. E, por isso que hei de exterminar do meio de ti O JUSTO e O ÍMPIO, a minha espada sairá da bainha CONTRA TODA A CARNE, desde o sul até o norte” (Ez 21:3-4).

(Só para citar alguns textos dentre milhares que se encontram no AT).

Conferem esses procedimentos com o Deus verdadeiro, o qual é Luz, Verdade e Amor? Onde está o amor que não se ressente do mal, se Deus, ao sofrer o mal, manifesta-se em vingança? Onde está o amor que não se alegra com a injustiça, se Deus ordena que se corte os tendões das pernas dos cavalos, e que mata o JUSTO juntamente com o ÍMPIO, e que chama de bem-aventurado aquele que esmaga a cabeça das crianças contra a pedra? Isso é minimamente estranho.

  1. DEUS NÃO É MAQUIAVÉLICO. Alguns estudiosos das Escrituras procuram harmonizar as violências do AT com o amor do Pai, revelado no Novo Testamento (doravante chamado de NT), na pessoa de Seu Filho. Para tanto, utilizam-se do seguinte argumento: “Embora seja sempre o mesmo, Deus revelou-se, ao longo da história, segundo o grau de consciência dos homens, em cada tempo. Isso significa que, embora sendo amor, Deus utilizou-se da cultura, do modo de organização política, da barbárie comum aos de então, dos conceitos rudimentares acerca do valor da pessoa humana, com o fim de revelar-Se e levar a cabo os Seus propósitos. Assim, quando Deus ordenava que se mutilasse um animal, ou que matassem crianças inocentes, ou que destruíssem nações inteiras, os homens daquele tempo não viam aquilo como sendo mal, ou perverso, como nós do século XXI consideramos; Deus, então, aproveitava-Se da consciência involuída dos homens, usava de seus mecanismos animalescos, com o fim de fazer conhecido o Seu poder, Sua soberania, revelando-Se como o Deus todo-poderoso, o Senhor dos exércitos”.  A ISSO CHAMAM REVELAÇÃO PROGRESSIVA. Mas, vejamos aonde chegaremos se aceitamos tal argumento:
  1. REVELAÇÃO PROGRESSIVA é a revelação paulatina de Deus, de sua natureza e caráter, ao longo dos tempos, mediante as Escrituras. Seria contraditório se Deus, querendo revelar-Se aos homens de determinado tempo, Se igualasse a eles, condescendendo-Se à ética e moral caídas. Tal revelação, ao invés de elevar os homens a Deus, rebaixa Deus à condição de homem caído, pois, não somente estaria Deus a ratificar a tirania, como também estaria a ordenar a continuidade do mal, NEGANDO-SE A SI MESMO.
  1. Se assim fosse, Deus cairia naquela velha máxima de Maquiavel (se bem que a máxima não foi cunhada por ele, mas traduz o seu pensamento): “Os fins justificam os meios”. Ou seja, Deus teria agido por meio de um povo bárbaro, cometendo toda sorte de atrocidades; e, embora esses atos fossem contra a Sua natureza e caráter, o importante era a revelação final de Sua força sobre todos os que não cumprem a Sua vontade. Para Maquiavel, o essencial é que os príncipes mantivessem a plena soberania do Estado, não importando se, para isso, tivessem que matar, exterminar, exilar, torturar.  
  1. COMO ENTENDER OS TEXTOS VETEROTESTAMENTÁRIOS:
  1. A Bíblia, embora composta de sessenta e seis livros, constitui-se num único livro, cuja unidade de sentido deve ser buscada dentro dela mesma. Os estudiosos das Escrituras precisam, pois, identificar sua hermenêutica, a fim de obter conclusões compatíveis com o que ela própria quer ensinar. Tomar o caráter de Deus, revelado na pessoa de Seu Filho, como premissa de interpretação, é o primeiro e grande princípio, conforme fizemos no tópico primeiro deste artigo. O segundo grande princípio é identificar a natureza dos escritos do AT, e o modo como foram interpretados pelos profetas.

“O único que possui imortalidade, QUE HABITA EM LUZ INASCESSÍVEL, a quem homem algum JAMAIS VIU, NEM É CAPAZ DE VER” (1Tm 6:16). Associado a este texto de Paulo, João demonstrou, pelas palavras de Jesus, que os judeus não podiam compreender nem mesmo as coisas da terra, que dirá se Jesus lhes falasse das coisas do céu; e arrematou, dizendo: “Nós dizemos O QUE SABEMOS e testificamos O QUE TEMOS VISTO... Ora, ninguém subiu aos céus, senão aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do Homem que está no céu” (Jo 3:10-13). Com isso, quis João esclarecer que os que vieram antes de Cristo, não compreendiam, com exatidão, as coisas referentes a Deus, que está no céu. Nenhum dos profetas subiu aos céus, por isso não compreendiam as coisas celestiais; como, pois, podiam falar com precisão acerca do Pai, que está no céu?

Diante desta fatalidade, afirmou João: “Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo. Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, QUE ESTÁ NO SEIO DO PAI, é quem O REVELOU” (Jo 1:17-18). Ou seja, a revelação de Deus, quanto à sua verdadeira natureza e propósito, jamais poderia ser trazida por aqueles que nunca o viram. Por esse motivo, Deus enviou o Seu Filho ao mundo, a EXPRESSÃO EXATA DO PAI (Hb 1:3), a fim de tornar conhecido o verdadeiro Deus (1Jo 5:20).

Quando diz tornar conhecido o verdadeiro Deus, não significa que o Deus do AT era falso; mas, que, o conhecimento recebido era indireto, passando pelas imagens terrenas (pois o que viam não passavam de teofanias), com linguagem humana (limitada aos conceitos e interpretações possíveis ao tempo), além de passar pelo olhar humano, que, mediante o seu grau de conhecimento e nível de consciência, INTERPRETAVA o que via, segundo os estereótipos próprios de seu tempo. Por isso diz que a lei era SOMBRA DAS COISAS QUE HAVIAM DE VIR (Cl 2:16-17; Hb 10:1). Ora, a sombra – sempre de cor preta – denuncia a ausência de luz. Ao se ver uma sombra, o que se pode saber é da existência de um suposto objeto (corpo), não, porém, a sua substância, com tudo que lhe é próprio. A luz, portanto, que os antigos tinham de Deus permitiam apenas que eles vissem Deus e seu propósito como sombras, deformados, alongados, diminuídos, imprecisos; de sorte que, DO JEITO QUE ELES VIAM, FALAVAM, sempre transmitindo uma imagem distorcida do Deus verdadeiro.

Quando Moisés fala sobre Deus, mesmo que em Seu nome, não se pode admitir que, o que ele diz, seja exatamente o que Deus é, pois Moisés não O via como de fato ele é.

Quando a luz se intensificou um pouco mais, os profetas já o podiam ver com maior nitidez. Eis a razão de haver tantas profecias messiânicas em seus escritos (agora de maneira mais explícita), e de haver tanta repreensão aos judeus com respeito ao seu relacionamento com a lei: a lei, não raras vezes, fora relativizada, com vistas a tocar a sua substância (Is 66:1-3; Jr 7:21-23; Os 2:11).

Davi, semelhantemente, viu algo além de Moisés. Mesmo nos tempos das sombras, o patriarca já vislumbrava algo maior em relação a Deus. Ele se aproximava do Eterno, e com Ele se relacionava, não como quem se aproxima do monte Sinai. Numa ocasião em que deveria escolher um castigo, entre cair nas mãos de Deus ou das dos homens, preferiu o juízo de Deus, pois sabia que o Eterno é misericordioso, diferentemente dos homens (1Cr 21:13). Por isso também entrou no templo, na casa de Deus, e comeu os pães da proposição, e, ainda assim, ficou sem culpa (Mt 12:4-5): não sem culpa segundo a lei, cujo ministério era a condenação e a morte (2Co 3:7 e 9) mas segundo o Deus misericordioso, cujo nome é Jesus: Yahveh é a salvação. Em toda a sua vida, viveu como se conhecesse o Deus revelado no NT, conforme Paulo declarou: “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo; não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da RECONCILIAÇÃO” (2Co 5:18).

E, pelo fato de Davi conhecer mais a graça de Deus, um pouco além do que seus contemporâneos, é que não lhe foi permitido edificar a casa de Deus. Ora, mas que raciocínio mais contraditório: Davi conhecia mais a Deus, e não lhe foi permitido edificar o templo?! Sim. Porque conhecendo a Deus como o Deus gracioso, NÃO COMO O DEUS IRADO DO SINAI, derramou ele muito sangue, em suas batalhas (travadas em nome de Deus!?). Por isso, Deus lhe disse: “A palavra do Senhor, porém, veio a mim, dizendo: Tu tens derramado muito sangue, e tens feito grandes guerras; não edificarás casa ao meu nome, porquanto muito sangue tens derramado na terra, PERANTE MIM” (1Cr 22:8). Como conciliar essa sentença de Deus contra Davi, à luz de tantas guerras presentes no AT?  Diante disso é preciso rever as batalhas sangrentas típicas dos tempos antigos, à luz da graça de Deus, NÃO COMPRENDIDA NO AT, porém manifestada no NT, na pessoa de Cristo Jesus.

     

  1. Tendo em vista que as Escrituras passam pelo olhar interpretativo do homem, pois Deus não anula a consciência humana no seu tempo, deve-se concordar que há nela elementos antropológicos. Isso acontece mesmo no NT. Quando João, no Apocalipse, disse que haveria uma chuva de estrelas sobre a Terra (6:13), não se referia certamente a estrelas; mas esse era o conhecimento que ele tinha então, e, mesmo assim, Deus não o corrigiu, ensinando-lhe coisas que só viriam à tona, séculos depois. Um erro de natureza astronômica está cometido nas páginas do último livro da Bíblia. Mas isso não pode ser conferido a Deus, nem tampouco à inspiração das Escrituras. Os homens falam o que recebem de Deus, mas esse falar vem misturado com o seu conhecimento possível, e sua compreensão presente.

A cultura do povo hebreu, assim como a dos povos de seu tempo, admitia guerras, escravidão, torturas, em razão da consciência involuída dos homens de então. ELES não viam em tudo isso o mal que hoje, no século XXI, nós vemos. Mesmo no tempo do Cristo encarnado, ainda não havia os direitos humanos, a noção de indivíduo, a humanidade da mulher, dos escravos, dos estrangeiros; essas coisas são próprias dos tempos da Modernidade. Por isso, é dito que Cristo não foi conhecido pelos seus, uma vez que Jesus era uma figura estranha no Seu tempo. Mesmo no NT, há a presença da escravidão, a qual o apóstolo Paulo não ab-rogou, mas estabeleceu uma relação fraternal entre senhor e servo.

Em tudo isso se vê, não a ratificação divina, nem tampouco a ordem de Deus para se praticar tais coisas. Vê-se, todavia, o Deus – ETERNO – que caminha com os homens, no tempo (não condescendendo com suas obras contrárias ao Seu caráter), mas que as admite, mediante a Sua VONTADE PERMISSIVA, por causa de Sua misericórdia, aguardando o tempo do seu crescimento. Esse crescimento não é de Deus, tampouco se refere à Sua revelação progressiva; mas é o crescimento dos homens, a qual Deus respeita, porque sabe que o homem é um ser psicossocial, que está em constante evolução.

Em razão da limitada compreensão que os homens tinham de Deus, é que muitas coisas foram por eles conferidas ao Eterno. Suas vitórias nas batalhas sangrentas eram, PARA ELES, proezas de fé, pois eram lutadas em nome de Deus. E isso, somente NESSE SENTIDO, era recebido por Deus como demonstração de profunda confiança. O Deus infinito, que se faz finito na história do Seu povo, não lhes exigia nada além da fé. Suas lutas, guerreadas em nome do “Senhor dos exércitos”, foram grandes demonstrações de uma fé invencível no único Deus, criador de todas as coisas. Israel batalhava contra povos pagãos e falsos deuses, movido pela fé no Deus único, revelado a eles, na medida em que podiam compreender. Por essa razão, não titubeavam em conferir a vitória ao seu Deus, porque eram movidos por essa consciência. A força era o modo como tinham de demonstrar a superioridade do verdadeiro em detrimento aos falsos deuses. Por isso, uma grande galeria de heróis foi construída; não uma galeria de homens que derramaram sangue, mas uma galeria de HERÓIS DA FÉ (Hb 11).

Quantas vitórias não se alcança nos dias de hoje, em nome de Deus, por meio da fé n’Ele, mas que estão marcadas por procedimentos que contrariam a vontade de Deus, revelada nas Escrituras do NT? Deus ratifica ou ordena tais procedimentos? Não, absolutamente. Porém, Deus ainda nos dias de hoje, não leva em consideração a ignorância de consciências não evoluídas. Em Sua longanimidade, Ele aguarda o crescimento, não abandona os Seus filhos, e os abençoa os que têm fé em Seu nome.              

  1. Tudo isso, porém, não invalida os juízos de Deus. As Escrituras estão fartas de declarações, de que Deus há de julgar os homens. Os juízos de Deus, entretanto, ocorrem passivamente. O apóstolo Paulo, ao se referir a ira de Deus, que se revela do céu, afirma que “DEUS OS ENTREGOU”, numa clara afirmação de que, os homens sofrem o juízo divino, quando dele se afastam (Rm 1:18 e 24). De sorte que, a única maneira de se livrar do juízo é voltar-se a Deus, em plena reconciliação com Ele (Sl 2:12). E isso é dito em lúcida referência àqueles que romperam os laços e quebraram as algemas com Deus (Sl 2:1-3). Por isso, afirmou Paulo, em referência ao juízo passivo de Deus: “Não vos enganeis; Deus não se deixa escarnecer; pois TUDO O QUE O HOMEM SEMEAR, ISSO TAMBÉM CEIFARÁ” (Gl 6:7). Ou seja, o homem é quem planta, e ele é quem colhe o que plantou. Essa é a lei da semeadura, a qual Deus estabeleceu em toda a Sua criação.    

Deus não pode matar, ainda que as Escrituras assim o digam, antropomorficamente. “Matar” ou “fazer perecer” não podem ser compreendidos em termos de uma ação ativa de Deus, de ferir e destruir a Sua criação. Deus não pode insurgir com violência, por mais justificada que seja, porque tal atitude é contrária ao Seu caráter de amor.

Quando o Senhor Jesus proferiu o juízo contra Jerusalém, dizendo que a sua casa ficaria deserta, o fez em lágrimas, dizendo: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que a ti são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, mas VÓS NÃO QUISESTES” (Mt 23:37). Ora, vede. Era como se Jesus, vendo o juízo iminente, lamentasse o fato de os filhos de Israel sofrerem a consequência de seus próprios caminhos.

O princípio de todo o juízo divino consiste na separação do homem de Deus. É a consequência inevitável da separação da Vida: “se comerdes do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, CERTAMENTE morrereis” (Gn 2:17). Não há nisso ameaça alguma; antes, há a declaração da fatalidade de se abandonar a fonte de toda bênção. Por isso está escrito: “Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e, PELO PECADO ENTROU A MORTE, assim a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5:12).

A morte, consequência final e acabada do pecado, entrou no mundo pelo pecado: origem de todas as misérias humanas. Não é proveniente de Deus. Deste, só provém vida, como está escrito: “o salário do pecado é a morte, mas o DOM GRATUITO DE DEUS É A VIDA ETERNA” (Rm 6:23).

O Eterno é comparado a um manancial de águas vivas, que os homens abandonaram (Jr 2:13). Não sem razão, tanto no AT como no NT, Deus está sempre a convidar os homens a voltarem-se para a vida, gratuitamente:

“Ó vós, todos os que tende sede, vinde às águas, e os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite” (Is 55:1);

O Espírito e a noiva dizem: Vem! Aquele que ouve diga: Vem! Aquele que tem sede venha, e beba de graça da água da vida” (Ap 22:17).

Deus é vida em Si mesmo. Onde a vida toca, tudo vivifica. Não há como proceder morte da Vida. Pelo contrário, a cura do mundo dar-se-á quando o Rio de Águas Vivas inundar todos os recantos da criação. Por onde o Rio passar, toda morte se transformará em vida: “Então me disse: estas águas saem para a região oriental e, descendo pela Arabá, entrarão no Mar Morto, e ao entrarem nas águas salgadas, estas se tornarão saudáveis” (Ez 47:8).

Esse entendimento é uma questão de conceito. Deus é luz, e n’Ele não há treva nenhuma; Deus é vida, e n’Ele não há morte alguma; Deus é amor, e n’Ele não há ódio, nem vingança, nem retaliação, nem ressentimento. “No amor não existe o medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo, aquele que teme, não é aperfeiçoado no amor” (1Jo 4:18).

Se não houver uma releitura das páginas do AT, como o fez Saulo, depois que encontrou a Cristo no caminho de Damasco, como conciliar o relato mosaico da queda do homem, com a releitura de Cristo, do mesmo fato? Refiro-me ao fato de Moisés ter dito que DEUS EXPULSOU O HOMEM DO JARDIM DO ÉDEN (Gn 3:23). Afinal, Deus expulsou mesmo o homem do jardim? Bem, segundo Cristo, foi o filho mais moço (referência aos gentios, e, portanto, a Adão), que saiu de casa, enquanto que o Pai, depois de amorosamente permitir, permaneceu de braços abertos, na porta de casa, aguardando o seu retorno (Lc 15:11-25).

A reinterpretação é feita a partir da revelação de Deus, na face de Cristo (2Co 4:6). Todo o AT deve ser relido, tendo o Filho do amor do Pai como o princípio hermenêutico de interpretação. A reinterpretação não é, por assim dizer, uma anulação do que foi dito; mas a atualização da verdade, conforme a luz foi brilhando, e demonstrando a exatidão da natureza d’Aquele de quem que é amor: “Deus é amor” (1Jo 4:8).

No amor de Cristo,

Alexandre Rodrigues  

Atualmente, uma grande Babel pode ser percebida no cristianismo. A evidência dessa manifestação se caracteriza pelas diversas denominações, cada uma com suas próprias doutrinas. Em muitos desses segmentos do sistema religioso a cultura e a tradição influenciaram na criação de doutrinas de homens, o que expressa confusão religiosa e incoerência com o todo da Bíblia.

Diferentemente de Jesus Cristo, o qual nos trouxe a doutrina de Deus em realidade, os homens criam suas próprias doutrinas por maldade ou desconhecimento, o que vai de encontro à sã doutrina registrada em verdade nas Escrituras neotestamentárias.

As doutrinas de homens têm a peculiaridade das proibições, na forma de ordenanças, as quais estão relacionadas com bebidas, comidas, vestimentas e outros comportamentos meramente de cunho exterior do ser humano.

Para justificar as doutrinas humanas, há quem se valha de textos isolados (versículos completos ou em partes) fora do seu respectivo contexto na Escritura. Não é de se admirar quando pensam que, dessa forma, as ordenanças inventadas ficam fundamentadas com o devido argumento bíblico.

Tratemos, portanto, acerca de uma porção bíblica muito pouco compreendida, posto que comumente utilizada (de forma restrita) para justificar a proibição do consumo de bebidas, passando assim por distorção da parte de homens:

Romanos 14:21 (RA) - “É bom não comer carne, nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa com que teu irmão venha a tropeçar [ou se ofender ou se enfraquecer].”

Com embasamento nesse versículo, de forma isolada, não poucos religiosos justificam:

“Está vendo? É a palavra de Deus dizendo que o certo é não beber bebida alcoólica, porque isso leva as pessoas mais fracas a se embriagarem e a cair em pecado. Por isso não podemos e não devemos beber bebidas alcoólicas.”

Questiono ao leitor: Essa explicação retrata em realidade o que está escrito naquela porção bíblica, considerando todo o contexto e as demais Escrituras?

Para chegarmos à resposta consistente, dada pela própria Escritura, será necessário proceder de forma semelhante a que Jesus fez no deserto da tentação. Ao ser tentado pelo Diabo, o qual citou uma porção das Escrituras de forma isolada para distorcer o sentido do texto, Jesus falou o que também está escrito. Dessa forma, a completude da interpretação proporcionou o correto entendimento da porção das Escrituras.

Do mesmo modo, para entender a citação de Romanos 14:21, precisamos ler o texto do capítulo e verificar o que também está escrito:

Romanos 14:1-23 - “Acolhei ao que é débil na fé, não, porém, para discutir opiniões. Um crê que de tudo pode comer, mas o débil come legumes; quem come não despreze o que não come; e o que não come não julgue o que come, porque Deus o acolheu. Quem és tu que julgas o servo alheio? Para o seu próprio senhor está em pé ou cai; mas estará em pé, porque o Senhor é poderoso para o suster. Um faz diferença entre dia e dia; outro julga iguais todos os dias. Cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente. Quem distingue entre dia e dia para o Senhor o faz; e quem come para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e quem não come para o Senhor não come e dá graças a Deus. Porque nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para si. Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor. Foi precisamente para esse fim que Cristo morreu e ressurgiu: para ser Senhor tanto de mortos como de vivos. Tu, porém, por que julgas teu irmão? E tu, por que desprezas o teu? Pois todos compareceremos perante o tribunal de Deus. Como está escrito: Por minha vida, diz o Senhor, diante de mim se dobrará todo joelho, e toda língua dará louvores a Deus. Assim, pois, cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus. Não nos julguemos mais uns aos outros; pelo contrário, tomai o propósito de não pordes tropeço ou escândalo ao vosso irmão. Eu sei e estou persuadido, no Senhor Jesus, de que nenhuma coisa é de si mesma impura, salvo para aquele que assim a considera; para esse é impura. Se, por causa de comida, o teu irmão se entristece, já não andas segundo o amor fraternal. Por causa da tua comida, não faças perecer aquele a favor de quem Cristo morreu. Não seja, pois, vituperado o vosso bem. Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo. Aquele que deste modo serve a Cristo é agradável a Deus e aprovado pelos homens. Assim, pois, seguimos as coisas da paz e também as da edificação de uns para com os outros. Não destruas a obra de Deus por causa da comida. Todas as coisas, na verdade, são limpas, mas é mau para o homem o comer com escândalo. É bom não comer carne, nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa com que teu irmão venha a tropeçar [ou se ofender ou se enfraquecer]. A fé que tens, tem-na para ti mesmo perante Deus. Bem-aventurado é aquele que não se condena naquilo que aprova. Mas aquele que tem dúvidas é condenado se comer, porque o que faz não provém de fé; e tudo o que não provém de fé é pecado.”

Esse capítulo, no qual está incluído o versículo 21, começa tratando sobre aceitar aquele que é fraco na fé entre os irmãos, sem criticar as opiniões dessa pessoa.

O texto continua com duas advertências. A primeira, feita a quem come de tudo (que não é débil na fé), para que não despreze quem não procede dessa maneira. Já a segunda, foi feita a quem só come verduras e legumes (que é fraco na fé), para que não condene quem come de tudo. O texto segue com a tratativa sobre esses dois tipos de irmãos, adicionando o exemplo de quem pensa que certos dias são mais importantes, enquanto outros pensam que todos os dias são iguais, figurando o fraco e o que não é débil na fé, respectivamente. Dessa forma, quem faz uma coisa ou outra deve estar bem firme nas suas opiniões, tendo a convicção de que está fazendo isso ou aquilo para o Senhor, sem julgar ou desprezar o próximo.

Mesmo assim, a advertência inicial é reiterada na sequência: o fraco na fé não deve condenar o que come de tudo, ao passo que o que come de tudo não deve desprezar o débil na fé. Ora, o fraco pensa que só pode comer verduras e legumes, consequentemente acha que deve ser condenado o que come de tudo. Diferentemente, o que tem a convicção que pode comer de tudo, acha que por isso pode desprezar o que come somente verduras e legumes. Eis o motivo de tal advertência por parte do apóstolo Paulo.

Logo em seguida, a Escritura apresenta o seguinte versículo chave:

Romanos 14:13 - “Não nos julguemos mais uns aos outros; pelo contrário, tomai o propósito de não pordes tropeço ou escândalo ao vosso irmão.”

O contrário de “julgar uns aos outros” é definido pela Escritura como “não pôr tropeço ou escândalo ao irmão”. É interessante sabermos que na Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) da Bíblia, foi utilizada a expressão “cair em pecado” nesse versículo. Vejamos:

Romanos 14:13 (NTLH) - “Por isso paremos de criticar uns aos outros. Pelo contrário, cada um de vocês resolva não fazer nada que leve o seu irmão a tropeçar ou cair em pecado.”

O que significa “pecado”, “tropeço” e “escândalo”? Continuemos a análise exegética do texto para entendermos o que a própria Escritura nos apresenta como definição.

Nessa porção, o apóstolo Paulo explica que nenhuma coisa é impura, exceto para quem considera determinada coisa impura. Portanto, alguma coisa fica impura somente para a pessoa que considera dessa maneira. Vale lembrar que essa “coisa” retrata no contexto os exemplos de itens relacionados a preceitos e doutrinas dos homens, tais como: comer, beber ou considerar determinado dia como mais importante que outro.

Em seguida, há uma advertência para quem não é débil na fé, a qual fala sobre não fazer o fraco ficar triste por causa daquilo que se come e não fazer esse irmão perecer por causa de comida, não dando assim motivo para falarem mal daquilo que se acha bom.

Neste ponto, apresento o seguinte questionamento para reflexão do atento leitor: Como é que o fraco na fé, o qual foi advertido a não julgar o que come de tudo, poderia ficar triste ou se perder por causa daquilo que o irmão que não é fraco come? Porventura teríamos que deixar de comer alguma coisa que outra pessoa acha que não se deve comer?

Prossigamos com a análise exegética do texto para compreender o que a própria Escritura nos fala a esse respeito.

O texto continua com a abordagem de que o Reino de Deus não é uma questão de comida ou de bebida, mas de viver corretamente, em paz e com a alegria que o Espírito Santo dá. Percebe-se que o texto estava tratando de comida, mas foi incluído um exemplo de item alternativo nesse ponto, a bebida. Portanto, vale lembrar que comida, bebida ou considerar determinado dia mais importante são exemplos para abordar as advertências que são relacionadas nesse texto.

Na sequência, o texto reitera que todos os alimentos podem ser comidos, mas é errado comer alguma coisa quando isso faz com que outra pessoa caia em pecado ou o comer com escândalo. Logo em seguida, vem o versículo 21:

Romanos 14:21 (NTLH) - “O que está certo é não comer carne, não beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa que leve um irmão a cair em pecado.”

É importante identificar que a expressão “cair em pecado” (na NTLH) equivale à expressão “tropeçar [ou se ofender ou se enfraquecer]” (na Almeida Revista e Corrigida - RA). Cabe ressaltar que abordaremos a seguir sobre a definição do que é “pecado”, discriminada em específico nesse contexto.

O capítulo termina com os seguintes dizeres:

Romanos 14:22-23 (RA) - “A fé que tens, tem-na para ti mesmo perante Deus. Bem-aventurado é aquele que não se condena naquilo que aprova. Mas aquele que tem dúvidas é condenado se comer, porque o que faz não provém de fé; e tudo o que não provém de fé é pecado.”

Essa porção termina definindo o que é pecado nesse contexto: o que não provém de fé. Portanto, aquele que tem dúvidas é condenado se comer, porque o que faz é pecado (não provém de fé). Isso não quer dizer que o apóstolo está relativizando o pecado, ou seja, para alguns não é pecado comer (ou beber) e para outros é.

De acordo com essa porção da Escritura, pecado é fazer alguma coisa com dúvidas, pensando se realmente não é errado. Dessa forma, o texto diz sobre a necessidade de cada um estar bem firme nas suas opiniões, porque o pecado é fazer alguma coisa com dúvidas: “Será que posso mesmo comer isso?”, “Será que é errado beber aquilo?”, “Será que posso mesmo deixar de considerar determinado dia como mais importante?”

Com a definição do que é pecado, dada pela própria Escritura, voltemos a dois versículos da porção abordada e consideremos a definição de pecado desse contexto, para que o nosso entendimento tenha cunho exegético e hermenêutico, sabendo agora o que também está escrito. Vejamos os versículos 13 e 21 considerando o significado da palavra “pecado”, conforme definido no versículo 23:

Versículo 13: Não nos julguemos mais uns aos outros; pelo contrário, tomai o propósito de não fazer nada que leve o vosso irmão a fazer algo com dúvidas, se isso é puro ou impuro.

Versículo 21: É bom não comer carne, nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa com que teu irmão venha a fazer algo com dúvidas, se isso é puro ou impuro.

Entendendo em realidade o que significa o versículo 21, podemos vislumbrar como a leitura isolada de um versículo bíblico, que desconsidera definições do seu respectivo contexto, causa tremendo prejuízo na interpretação e no entendimento. A prática da leitura parcial está presente em muitas denominações do cristianismo contemporâneo, o que acarreta na criação de diversas doutrinas de homens.

Com o entendimento clarificado dessa porção bíblica, podemos fazer uma relação harmônica com outros textos das Escrituras, como por exemplo: Colossenses 2, Efésios 5, Mateus 11, Mateus 15, Lucas 7. Em todas essas porções, dentre outras, vemos as Escrituras em voz uníssona a afirmar que na atual dispensação da graça não há proibição para o consumo de bebida, de comida ou deixar de guardar determinado dia.

Tais proibições em realidade não fazem parte da doutrina de Deus, mas sim das doutrinas de homens. O que acontece atualmente é uma distorção dos textos por parte de homens que não fazem a leitura do que também está registrado nas Escrituras. Com relação ao texto abordado, muitos tomam o versículo 21 de forma isolada para justificar somente a proibição do consumo de bebidas alcoólicas.

O cristão atento já se perguntou por que esse versículo não é utilizado para a proibição do consumo de comidas?

Um argumento comumente utilizado por muitos defensores das doutrinas de homens, os quais proíbem o consumo de bebidas, é: “Se bebermos e uma pessoa que é alcoólatra ver isso, ela vai cair em pecado, consumindo bebida em excesso só porque nos viu bebendo.”

Neste momento, alguns pontos carecem da reflexão do leitor, considerando a relação entre os textos das Escrituras (intertexto) que falam sobre esse assunto.

Na época de Jesus e de seus apóstolos havia o problema do alcoolismo na sociedade. (Mateus 11:19, Efésios 5:18, 1 Coríntios 11:21, Tito 2:3).

Se fosse realmente assim como muitos pregam, utilizando o argumento acima exposto, por que Jesus não se privou de comer e beber vinho com publicanos e pecadores? (Lucas 7:34).

Porventura, estaria Jesus influenciando e corroborando para que algum fraco na fé se embriagasse? De modo algum.

Seria Jesus (ou um discípulo seu) responsável por alguma pessoa consumir bebida alcoólica em excesso? É evidente que não.

Jesus multiplicou o vinho na festa de casamento. (João 2:1-11) Havia a possibilidade de alguém se embriagar? A responsabilidade pelo consumo em excesso seria de Jesus, que multiplicou o vinho, ou seria da pessoa que tivesse consumido? A bondade e a misericórdia do Filho de Deus são a expressão do próprio Pai, que nos abençoa abundantemente. Se a bênção recebida de Deus é utilizada de forma imprudente, consequentemente não deve ser atribuída como responsabilidade Daquele que concedeu a bênção.

E as duas multiplicações de pães e peixes (Mateus 14:13-21 e Mateus 15:32-38), por que os líderes do sistema religioso evitam pregar sobre o excesso de comida? Só vale o excesso de bebida, e somente bebida alcoólica?

Será que Jesus Cristo seria aceito nas denominações do cristianismo, sabendo os líderes delas que ele multiplicava vinho e bebia com pecadores?

Por essas e outras, que a porção de Romanos 14 nos apresenta que há o fraco na fé, o qual pensa que não pode comer de tudo ou beber ou que deve considerar determinado dia como mais importante. Esse tipo de irmão foi advertido a não julgar o irmão que come de tudo, porque não é pecado comer de tudo.

Como então o fraco poderia ficar triste ou se perder por causa daquilo que o irmão que não é fraco come, sendo que o pecado é comer com dúvidas se aquilo que se come é puro ou impuro?

Quem come de tudo não deve desprezar o que não come. Se o que come de tudo desprezar o que não come, consequentemente não o esclarecerá sobre o que é correto e irá influenciá-lo pela circunstância a comer ou a beber aquilo que pensa ser errado consumir. Sendo influenciado, o fraco tentará evitar o desprezo. Dessa maneira, o irmão mais forte na fé estará agindo de forma errada, ao influenciar por desprezo o irmão fraco, sem lhe esclarecer o que é correto em realidade.

Portanto, no texto em questão, há o seguinte esclarecimento:

Romanos 14:17-19 (RA) - “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo. Aquele que deste modo serve a Cristo é agradável a Deus e aprovado pelos homens. Assim, pois, seguimos as coisas da paz e também as da edificação de uns para com os outros.”

Fica evidente que as Escrituras são coerentes, mas há muita incoerência proporcionada por homens maus que fazem uma leitura errônea dos textos sagrados e inventam muitas doutrinas para justificar preferências pessoais e motivações diversas, incorrendo em apostasia. De sorte que os acontecimentos do cristianismo atual são para que se cumpram as Escrituras.

No amor de Cristo,

José Maria Júnior

Sexta, 18 Março 2016 13:58

Qual o verdadeiro nome de Jesus Cristo?

Muito se tem discutido nestes últimos dias acerca do verdadeiro e exato nome de Deus e do Seu Cristo. Tais discussões não têm tido avanço real, haja vista que, nem mesmo entre os puristas linguísticos que vivem em função desta busca há unanimidade. Muitas são as variantes defendidas pelos pretensos detentores da ORTOGRAFIA e FONÉTICA divina. E por que não há consenso entre eles? Pelo simples fato de IGNORAREM que CADA LÍNGUA possui suas PRÓPRIAS LEIS.

Cada idioma possui seu próprio léxico, sendo este o conjunto de palavras que lhe são próprias. As palavras por sua vez dispõem de típica morfologia. Ou seja, a forma que assumem, quanto a sua estrutura construtiva, depende do idioma a que pertencem. Semelhantemente, para cada forma, haverá uma fonética específica em cada língua. De sorte que cada idioma possui fonética, morfologia e léxico próprios, além de sintaxe, semântica, pragmática, semiologia, particulares e distintas. Afinal, o que distingue as várias Gramáticas (entende-se Gramática como a totalidade de regras que determinam cada idioma) são as suas idiossincrasias e especificidades, desde o rudimento fonético até a sua maior expressão na Literatura.

Quando ocorre tradução, em que palavras, expressões e ideias migram de uma língua para outra, certo é que todas as suas leis, ou a maioria delas, devem obedecer às novas leis gramaticais para as quais são traduzidas. Sobretudo quando se trata da ortografia, a qual é a correta representação escrita e material dos fonemas. (Os fonemas estão para a fala, enquanto a ortografia está para a escrita). Escrever e falar segundo o padrão oficial de determinada língua é questão de ciência linguística. Afinal, cada idioma possui Gramática própria, prescrita e normativa, com vistas à unidade linguística ENTRE SEUS FALANTES. Impor, portanto, a mesma fonética ou ortografia de determinado idioma para todos os outros, para falantes de línguas estrangeiras que não estão sob a mesma prescrição gramatical, é sintoma de puro analfabetismo e inquestionável desconhecimento dos rudimentos linguísticos. Refiro-me ao fato de quererem condicionar, em todas as línguas, uma única e mesma fonética e ortografia ao nome de Deus e ao de Seu Ungido.

Os puristas do nome divino, entretanto, possuem um argumento, frente ao aqui proposto: dizem que se tratando de nome próprio não há tradução. Afirmam que nomes pessoais devem manter inexoravelmente as mesmas formas gráficas e os mesmos sons, do ponto de vista físico, acústico e articulatório. Seria isso uma verdade ou um sofisma? Vejamos.

Em Português dizemos que o fulano se chama João. Como representaríamos este nome em grego? Bem, segundo a ortografia, a escrita assumiria a seguinte estrutura: Iwαννης. Já conforme a fonética, pronunciaríamos /Ioanis/. Traduzido de volta para o Português, o iota se torna J, o ômega encontra o seu correlato na vogal "o", e o alfa, na vogal "a". A letra "ni" dobrada, graficamente representada pela letra "v", que em Português chamamos "ve", mas que em grego tem a fonética idêntica ao nosso "n", reunida ao "eta" (η) e ao "sigma" (ς) gregos, articulados em Português como "e" e "s", respectivamente, formam em grego o que em Português lemos simplesmente "ão". E tudo isso reunido lê-se, em Português, JOÃO. Se o traduzirmos para o Inglês, teremos John, cujo “j” possui articulação fonética distinta tanto do Grego quanto do Português. No Espanhol, escreve-se Juan, que lido segundo a fonética espanhola, diz-se /Ruan/. E a questão em torno do nome JOÃO fica muito mais complexa quando o traduzimos para o Italiano, em que encontramos GIOVANNI.

Ora, vede. João, Iohannes, John e Giovanni, são tudo a mesma coisa, tendo por diferença unicamente as idiossincrasias particulares de cada idioma. Esse exercício pode ser feito com qual nome preferir. Pensemos sobre o nome Tiago. Para nós, brasileiros, simplesmente Tiago. Para os espanhóis, James. Para os italianos, Giacomo. Para os alemães, Jakob. Para o árabe, جيمس.

Percebe-se claramente que, se tratando de línguas, mesmo quando o específico é NOME PRÓPRIO, adentramos em campo bastante complexo. Não sejamos simplórios. Não pensemos que este é assunto de religião. Trata-se de assuntos linguísticos. Se alguém deseja discutir tal matéria, deixe de lado a fé e procure especializar-se em ciências linguísticas. E não somente nisso, mas até mesmo em assuntos morfofisiológicos. Haja vista que, em razão de os idiomas serem orgânicos, sua práxis fonética depende da morfologia fisiológica do aparelho fonador de cada falante. Em que consiste a dificuldade de determinado indivíduo aprender efetivamente uma segunda língua? Não obstante a facilidade dos aspectos teóricos da língua estudada, há de entravar-se na organicidade articulatória da execução fonética-fonológica das palavras estrangeiras, pela dificuldade de produção de sons inexistentes em sua língua materna, para os quais o seu aparelho fonador não foi condicionado.

Há de se ressaltar ainda que, diante de toda a babel linguística do mundo, Deus jamais pode condicionar Sua salvação nem as bênçãos dela decorrentes a uma maneira correta de se pronunciar um nome nem tampouco à sua ortografia. Afinal, Deus é o ser INOMINÁVEL. Nem um nome do mundo, seja ele escrito ou pronunciado, é capaz de nominar aquele que é eternamente desconhecido. Pois, qual dos finitos pode delimitar, mediante um nome, o INFINITO? Qual dos mortais, com as suas balbuciantes e bárbaras palavras pode definir o INDEFINÍVEL? Pode o ABSOLUTO ser contido no relativo? Pode o ETERNO ser aprisionado num trapo de palavra que, de tão efêmera, não suporta a diacronia de sua própria língua-mãe, vindo a morrer no eixo de sua história? Ah! Queridos, desculpem-me. Mas há muita gente reduzindo o Deus-espírito a meras fraseologias linguísticas, culturalmente nascidas no tempo e, nele, fadadas a morrer.

Palavras, expressões, frases, que para nada servem, senão para habilitar os homens de determinado tempo e espaço a se relacionarem fugazmente com os seus iguais, mediante gaguejantes palavras, nada são diante do LOGOS, do VERBO, da PALAVRA VIVA. Busquemos, pois, as coisas eternas, sem atentar para as efêmeras, tendo em conta que o Deus onisciente conhece nossos corações, mesmo sem termos pronunciado palavra alguma, como está escrito: “Ainda a palavra não me chegou à língua, e tu, Senhor, já a conheces toda” (Sl 139:4).

Encerro estas considerações, com o belíssimo poema do poeta pré-modernista, Augusto dos Anjos:

A Ideia
“De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,[1]
Tísica, tênue, mínima, raquítica...

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No molambo da língua paralítica!

 

No amor do Inominável de mil nomes...
Alexandre Rodrigues.

Resposta:

Bem. Voltemo-nos às Escrituras e vejamos o que Ela tem a nos dizer a respeito de João Batista e de sua relação com o “Elias” prometido.


1) Malaquias profetizou a vinda de Elias, antes do grande e glorioso dia do Senhor (Ml 4:5);
 

2) O anjo Gabriel, ao profetizar o ministério de João Batista, afirmou que ele - JOÃO BATISTA - iria adiante do SENHOR no ESPÍRITO E PODER DE ELIAS (Lc 1:17);
 

3) Jesus identificou o cumprimento da profecia de Malaquias na pessoa e ministério de João Batista (Mt 11:14);
 

4) João Batista NEGOU ser ele fosse o profeta Elias (Jo 1:21).
 

Ora, onde está a verdade: na AFIRMAÇÃO de Jesus ou na NEGAÇÃO de João Batista? Afinal, João Batista é ou não o profeta Elias?
  

Sexta, 11 Março 2016 17:59

RESPOSTA À PERGUNTA DE INTERNAUTA

Baseado no falar do bispo Alexandre - "Somos despenseiros do ministério do novo testamento 
de Jesus Cristo, ministros da nova aliança, possuindo e entendendo que, o novo testamento é 
SUFICIENTE para revelar a Deus na pessoa de Jesus, e seu plano eterno para a humanidade, 
levado a cabo pela obra e ministério do Espírito Santo". Pergunto: 

Vocês não acreditam no Velho Testamento, ou não pregam sobre ele? Onde vocês colocam o 
AT na igreja de vocês? Se puder me responder ficarei agradecida, pois essa frase sua acima me 
chamou atenção. Fique na paz!!!

Cremos em toda a Escritura Sagrada, pois assim está escrito: "Toda a escritura é inspirada por 
Deus" (1Tm 3:16).

Por este motivo, é que a colocamos acima de todas as tradições humanas, de modo a não a 
submeter a NENHUM TIPO DE INTERPRETAÇÃO PARTICULAR. Afinal, nenhuma profecia é de 
particular elucidação (2Pe 1:20).

Esse procedimento confere às Escrituras, e somente a ela, a autoridade de interpretação de si 
mesma. Como diz o princípio maior da hermenêutica: a Escritura interpreta a si mesma.

Sabendo, então, que as Escrituras Sagradas possuem dois testamentos, fruto de duas alianças, 
pergunte à própria Escritura o que ela tem a dizer acerca do antigo testamento, e ela 
responderá. Vejamos:

1) Mt 5:17 - "Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim para destruir, vim para 
cumprir". A expressão Lei e profetas significa totalidade do antigo testamento.  Ora, vê-se que 
Jesus não veio instaurar NOVA DOUTRINA, contrária à do antigo testamento, de modo a 
destruir o que os antigos receberam. O que então veio ele fazer? Cristo veio cumprir, isto é,
trazer o pleno cumprimento de tudo o que a lei e os profetas falaram a seu respeito. Neste 
sentido, o antigo testamento era testemunha daquele que viria (Jo 5:39). Quando Cristo 
encarnou-se, veio ao mundo como a plenitude, como a substância, como a realidade 
anunciada pelo antigo testamento, conforme está escrito: "Ninguém, pois, vos julgue por
causa de comida e bebida, ou de de festa, ou lua nova, ou sábados, PORQUE TUDO ISSO TEM 
SIDO SOMBRA DAS COISAS QUE HAVIAM DE VIR; PORÉM O CORPO É DE CRISTO " (Cl 2:16). Se
a lei, conteúdo do antigo testamento, era apenas sombra (Hb 10:1), então, quem é a realidade? - Cristo.


2) Hb 7:18-19 - "Portanto, por um lado, se revoga a anterior ordenança, POR CAUSA DE SUA 
FRAQUEZA E INUTILIDADE (pois a lei nunca aperfeiçoou coisa alguma), e, por outro, se 
introduz esperança superior, pela qual nos achegamos a Deus". Veja. Com a insistência dos 
hebreus de continuarem a andar segundo a Lei (antigo testamento), o escritor aos Hebreus 
afirma categoricamente que a Lei, a despeito de sua importância dispensacional, era fraca e
inútil, e isso porque NÃO PODIA DAR VIDA AO HOMEM (Gl 3:21 Cp. Jo 10:10). A Lei não podia 
aperfeiçoar o homem, por que estava enferma por causa da carne (Rm 8:4). De sorte que a lei 
tornou-se obsoleta, ultrapassada, vencida, antiquada, e veio a desaparecer (Hb 8:13). 
Infelizmente, nem os judeus, nem os judeus convertidos ao evangelho, nem tampouco os
gentios convertidos à Cristo, sobretudo os dos dias de hoje, entenderam o papel do antigo
concerto. Não atentaram para o fato de que o ministério da lei era o ministério da condenação
e da morte (2Co 3:7 e 9). Não perceberão que a glória da antiga aliança (Lei) era efêmera, 
passageira, e que veio a desaparecer (2Co 3:10-11). A glória do antigo testamento, assim como 
a glória no rosto de Moisés, apagou-se, para que a glória permanente do novo testamento 
pudesse brilhar, numa intensidade cada vez maior, como quem busca alimentar-se da Luz 
infinita, que habita em lugar inacessível. Esta é a vida eterna. A busca constante pelo Infinito,
sem nunca O alcançar plenamente, mas cada vez mais imerso e absorvido por ele. Este é o 
ministério do novo testamento: a vida eterna. 

No amor de Cristo,

Alexandre Rodrigues

Quinta, 15 Outubro 2015 09:28

FÉ E OBRAS NA EPÍSTOLA DE TIAGO

O livro de Tiago, o primeiro do novo testamento, desde o primeiro século tem sido alvo de acirradas discussões no campo da crítica literária bíblica. Quantas são as asseverações a seu respeito, tantos são os equívocos de interpretação deste protoevangelho nas escrituras, com raríssimas exceções. Os erros em torno desta epístola cruzam o horizonte, do oriente ao ocidente, desde a suposta salvação por meio de obras até a sua radical exclusão do cânon neotestamentário.

Em razão disso, muitos o tem, entre outras porções das Escrituras, como fator antagônico e discordante da suprema verdade das Escrituras: “o justo viverá pela fé” (Hc 2:4; Rm 1:17). Este texto áureo é reescrito em muitos outros lugares, até mesmo em diversas outras literaturas sapienciais e místicas. Não obstante, de tempo em tempo, lá vem o “Tiago” com as mesmas perguntas: existe salvação somente pela fé, sem a participação de obras? Ora, para quem crê na indubitabilidade das Escrituras, basta a resposta explícita de Paulo: “Tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ELE MESMO SER O JUSTO E O JUSTIFICADOR DAQUELE QUE TEM FÉ EM JESUS. Onde, pois, a jactância? FOI DE TODO EXCLUÍDA. POR QUE LEI? DAS OBRAS? Não; pelo contrário, pela LEI DA FÉ. CONCLUÍMOS, POIS, QUE O HOMEM É JUSTIFICADO PELA FÉ, INDEPENDENTEMENTE DAS OBRAS DA LEI” (Rm 3:26-28). Ora, precisamos de resposta mais clara e explícita do que essa? Certamente, não. Entretanto o “Tiago” vez ou outra está de volta, o qual não é outro senão a velha tradição de uma teologia deturpada, cuja raiz radica-se no primeiro homem caído, Adão, gerando uma linhagem arminianista, que passa por Caim, ante e pós-diluvianos, israelitas legalistas, fariseus e saduceus, igreja de Jerusalém – representada pelos fieis da circuncisão –, igreja romana em toda a idade média, igrejas evangelicalistas (pentencostais e neopentecostais), e não raras reformadas, que, com o tal do reavivamento, manifestaram que o DNA da prostituta continua em suas filhas.

Mas qual a razão para tantos problemas em torno da epístola de Tiago? Bem, o problema, como sempre, encontra-se na tradicional leitura fragmentada. O homem ocidental não aprendeu a ler o todo; está sempre a balbuciar fragmentos, porque a miopia não lhe deixa ver o fio de prata que vitaliza as partes e gera a unidade de pensamento do livro. Imagine o leitor tomando apenas o versículo 25 do capítulo 2 de Tiago: “De igual modo, não foi também justificada POR OBRAS a meretriz Raabe, quando acolheu os emissários e os fez partir por outro caminho? ”. Ora, quais foram as obras de Raabe que a justificou diante de Deus? Cite-me apenas uma obra, já que os que tomam Tiago por pretexto, têm sempre em vista obras materiais e tangíveis em complemento à fé. Qual obra foi realizada pela famosa cortesã para que a sua fé fosse completada? Seria porventura este o tema da epístola: A insuficiência da fé em face da salvação, e sua necessidade de ser completada por obras humanas? Ou, a fé por si só não salva; exceto se acompanhada de obras? Estaria a Escritura dicotomizando fé e obras, pondo-as numa relação de complementaridade? Bem, se assim fosse, coitada de Raabe. Certamente não figuraria ao lado de Abraão.

Vejamos, então, a partir de uma visão holística da epístola, permitindo que o fio de prata costure e vitalize cada parte do texto, qual o real sentido das palavras de Tiago. Não faremos aqui uma espécie de comentário do livro, o que demandaria um tempo de que não disponho no momento. Tocarei brevemente nos pontos críticos com o fim de elucida-los. Para tanto, fá-lo-ei enumerativamente, a fim de que não se perca a construção do pensamento.

1. TEMA DA EPÍSTOLA. O livro em discussão, por paradoxal que pareça, não trata de obras humanas. (IMAGINO O ESPANTO DO LEITOR). Como não, se sempre que se quer falar de obras em relação dicotômica à fé se usa esta missiva? Bem, aqui está o ponto nevrálgico, que, se não compreendido, nada se saberá acerca desta epístola. O tema de Tiago é A FÉ. Poderíamos melhorar este tema colocando-o da seguinte maneira: A verdadeira fé, que procede de Deus, e sua vitalidade orgânica, a qual engendra o poder gerador das virtudes divinas, no homem. Explico. Tiago se dirige a um grupo de pessoas, teoricamente salvas. Digo teoricamente porque não se sabe de fato se o espírito de tal pessoa é ou não regenerado (Rm 8:9-10). Bem, na teoria, grosso modo, Tiago fala em termos orgânicos de regeneração: segundo o seu querer, ele nos GEROU PELA PALAVRA DA VERDADE... (1:18). Partindo desse pressuposto, espera-se que esta vida frutifique para Deus. A salvação de Deus não consiste em meros aspectos judiciais de perdão de pecados, com vistas a livrar o homem do fogo eterno e garantir-lhe um lugar no paraíso. A bem da verdade, a redenção judicial constitui-se em um meio para que a salvação de fato ocorra. A salvação, neste sentido, é puro espírito e vida, dentro do homem, organicamente livrando-o das paixões do mundo, na medida em que o homem se torna coparticipante da natureza divina (2Pe 1:4). E a fé, neste contexto, é a tecla que aciona o poder divino no espírito humano, a fim de liberar o fluxo desta vida poderosa, para ser manifestada na carne (1Tm 3:15-16). Quando, entretanto, essa vida não manifesta seus ricos atributos de bondade, amor, misericórdia, perdão, justiça – vejam as obras que aqui cito –, o que fazer? Exigir que o homem as faça para que tenha ele a garantia de salvação? Não. Absolutamente. O problema certamente está na fé, não nas obras. É neste ponto que Tiago faz o grande questionamento de sua epístola: “Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém DISSER que tem fé, mas não tiver obras? (2:14). Observem que não se afirma aqui que aqueles têm fé. Mas é dito que ELES DIZEM QUE TEM FÉ. Trata-se de uma fé meramente professa, industrializada, manufaturada pela religião. Como está dito também em 1Jo 4:20: “Se alguém DISSER: amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso...”. Observa-se que se trata de mera profissão sem a devida substância vital interior. Assim, diante de uma fé artesanal, Tiago questiona, dizendo: “...pode, acaso, SEMELHANTE fé salvá-lo? ” (2:14). Oh, vocês viram isso? Tiago afirma categoricamente que a FÉ É QUE SALVA. Questiona, todavia, se aquele tipo de fé salival, sem nenhum alento, teria o poder de salvar alguém. O contrário também é verdadeiro: se uma fé meramente doutrinária não pode salvar o homem, a fé orgânica de Deus, engendrada no coração do eleito, pode salvá-lo completamente. Mas salvá-lo de que? Ora, da “impureza e acumulo de maldade...” (1:21), que faz acepção de pessoas (2:1), que menospreza o pobre (2:6), que fala desmedidamente dos outros (3:1-12; 4:11), que o faz confiar nas riquezas (5:1-3). A pergunta aqui é a seguinte: tu que hoje lês estas palavras tens sido salvo pelo poder da fé viva e orgânica de Deus, ou tens se frustrado nas tuas vãs tentativas de fazer obras para Deus, com o fim de seres salvo escatologicamente, na medida em que verificas que não podes PERMANECER em todas as coisas escritas no livro da lei para praticá-las? (Gl 3:10). Sabendo que, a despeito de todas as tuas forças e sinceridade, se guardardes toda a lei, mas tropeçares em um só mandamento, tornar-te-ás culpado de todos (Tg 2:10). Bem, o questionamento aqui é acerca da NATUREZA DA FÉ. Se a fé é viva e orgânica, é a verdadeira fé que vem de Deus (Ef 2:8). Se é meramente humana, professa, industrial, artesanal, religiosa, impotente, é, por assim dizer, uma fé morta. Assim é, porque a fé genuína tem espírito. A fé de Deus possui embrião; cresce; floresce; frutifica.

2. OBRAS. Sim, “porque, assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta” (2:26). A fé é aqui representada metaforicamente pelo corpo, e as obras, pelo espírito. Portanto, a fé genuína tem espírito, o qual logo se manifestará exteriormente na forma de obras. Não qualquer tipo de obras, como querem os defensores das obras em detrimento da fé. Mas falamos aqui das obras de Jesus Cristo (Ap 2:26); das obras feitas em Deus (Jo 3:21); das obras de ouro, prata e pedras preciosas (1Co 3:12); das obras que Deus preparou de antemão para que andássemos nelas (Ef 2:10). São, em suma, o FRUTO DO ESPÍRITO. É o fruto do Espírito Santo em nós. Não o nosso fruto para o Espírito Santo. Assim, não precisamos de obras para sermos salvos. Antes, somos salvos pela graça, mediante a fé, PARA as boas obras. Ou seja, as obras aqui são resultados da salvação, não o meio de alcança-la. São o fruto da fé, não um elemento diferente, de outra natureza, com vistas a ser o seu complemento; mas a sua expressão e manifestação.

3. Sim. As obras verdadeiras são a manifestação da fé. Ou seja, as obras são A FÉ MANIFESTADA. Como Tiago mesmo diz: “MOSTRA-ME (repare no verbo) a tua fé sem as obras...” (2:18). Pergunto: está aqui a se exigir obras enquanto complemento da fé? Certamente, não. Mas está dito: não é possível demonstrar a fé interior, senão mediante a sua própria manifestação exteriormente. Tiago continua: “e eu, com as minhas obras te mostrarei a minha fé” (2:18). Enquanto uns dizem ter fé, não a tendo – por isso não a pode demonstrá-la –, outros, em silêncio, demonstram a fé que possuem, embora não gritem pelas praças. Este foi o caso de Abraão, como está escrito: Abraão creu em Deus... (Gn 15:6). Mas, mesmo tratando-se de Abraão, surge uma incógnita: será que o crer de Abraão era uma fé professa ou verdadeira? Era viva ou industrializada? Orgânica ou religiosa? Bem, Tiago responde, dizendo: “... com efeito, foi pelas obras que a fé se CONSUMOU” (2:22). O termo grego para a expressão “CONSUMOU” é teleioo, que quer dizer TORNAR CHEIO. A fé de abraão progrediu do perigeu ao apogeu. A obra aqui referida não é um segundo elemento adicionado a uma fé mórbida e inoperante, insuficiente por natureza. Não. Trata-se da glorificação da fé em seu estágio consumado. Assim como o fruto é a manifestação final da semente, assim são as obras genuínas provenientes da genuína fé. Tiago não discorda de Paulo. Pelo contrário, ratifica-o. O mesmo ocorreu com Raabe. Seu gesto de acolher espias e de mentir aos seus compatriotas foi uma manifestação da fé interior do seu coração no Deus vivo (Js 2:8-11). É bem verdade que tal manifestação da fé de Raabe foi muito mais precoce que a de Abraão. Entretanto, deve-se analisar que, assim como é maior ou menor o tempo necessário para uma planta frutificar – se mangueira, muitos anos; se tomate, bem menos –, assim também a fé. Não se pode comparar a oliveira que foi Abraão, com a simples roseira que foi Raabe. Todavia, em ambos os casos se vê o mesmo princípio: a fé viva e orgânica que se desenvolveu do seu estágio embrionário para o da frutificação. De sorte que, assim como o ouro enquanto na terra é chamado de mineral e, uma vez extraído, é denominado minério, assim a força operante da vida regeneradora de Deus no homem: quando pulsante no interior do coração, chamamos fé; quando manifestada exteriormente, denominamos obras.

Resta-nos saber se nós que lemos este artigo possuímos uma fé genuína ou meramente uma fé professa. A resposta passa por duas instâncias: a primeira é se possuímos alguma obra (pois elas manifestarão a nossa fé); a segunda diz da natureza da obra, do ponto de vista qualitativo, não, quantitativo. Se possuímos obras, passemos logo para a segunda instância. Que obras você pratica? Seria as obras quantitativas da religião, inventadas pelos homens que procuram aprisionar os filhos de Deus? Ora, estas obras da religião a que me refiro são as ABSTINÊNCIAS DE COISAS LÍCITAS, que fazem parte da vida humana na terra. Os líderes perversos tomam estas coisas e as transformam em pecados, os quais com o tempo se tornam verdadeiros pecados culturais, tais como, tipos de roupas, lugares, comidas, bebidas, músicas, que “não têm poder algum contra a sensualidade” (Cl 2:20-23). Estas obras estão no âmbito quantitativo e não corresponde às obras de Deus. Na religião, quanto maior o número de obras feitas, maior é o prestígio na comunidade e maior o orgulho de ser melhor que os demais. No reino de Deus, porém, NÃO É ASSIM. As obras aqui são medidas qualitativamente. São obras que, embora feitas exteriormente, nascem e radicam-se no coração. É como disse Jesus. “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5:14-16). A lâmpada encontra-se no espírito humano (Pv 20:27), mas sua luz alcança o mundo exterior. Os raios das boas obras fulguram no mundo, mas originam-se e se alimentam da fonte interior, onde habita o Espírito de Deus. Estas obras não podem ser realizadas pelo esforço humano. São, como disse Jesus, justiça e misericórdia (Mt 23:23). E como disse Paulo, são entranhados afetos de misericórdia, que se manifestam nas mais variadas formas de amor. São obras do Espírito. São obras de Jesus Cristo. São obras feitas em Deus. Quem está apto a receber este conceito?

Sábado, 27 Junho 2015 15:35

SERÁ MESMO QUE DEUS EXISTE...

— Será mesmo que Deus existe? Perguntou o pai de Cristiano Araújo por ocasião do sepultamento do cantor sertanejo. Diante desta indagação amargurada, pus-me a refletir acerca do silêncio de Deus, supostamente indiferente ao sofrimento humano. E foi nessas reflexões que pude ouvir os estrondos dos corações egoístas bradando e pondo em dúvida a existência d’Aquele que é amor: — porque Deus permitiu isso?; — Deus não se preocupa comigo; — será mesmo que Deus existe? Foi aí que me veio o seguinte questionamento: por que indagar acerca de Deus somente agora que se vê o filho num caixão? Por que não o fazer no tempo da fama, do dinheiro, do sucesso, das glórias? Ora, certamente muitos morreram antes dele. Não poucos sofreram desgraça maior. Milhares estão morrendo à mingua na fome e na miséria. Dos hospitais se ouve gemidos dos que já não têm esperança. Nas ruas se vê crianças com frio, nuas, dependendo da benevolência daqueles que comumente as olha com discriminação. Homens já crescidos, como ratos, vasculham lixos em busca de comida. Mulheres idosas, catadoras de papelão, empurram carrinhos cheios daquilo que não nos serve para nada, a fim de ganhar algum dinheiro no final do dia. E diante de tudo isso nunca questionamos a existência de Deus, até que a dor bate à nossa porta. Puro egoísmo. Se estou bem, Deus existe, mesmo que o mundo inteiro se desfaça em dor e miséria. Se, porém, a desgraça me alcança, Deus então deixa de existir. Se tenho saúde, bens, dinheiro, fama, sucesso, digo que Deus é bom, ainda que os que estão a minha volta estejam em profunda miséria. Se, todavia, me faltam essas coisas, ponho em dúvida a existência e o amor de Deus. E em razão desse egoísmo, deixo de perceber que o silêncio de Deus e Sua suposta inexistência não está n’Ele, mas em mim. Porque quando deixo de chorar com os que perdem seus entes queridos, quando deixo de compadecer-me diante da desgraça alheia, quando deixo de dividir o pão com o faminto, quando deixo de visitar os doentes nos hospitais e lhes levar esperança, quando deixo de vestir o nu, de socorrer os desesperados, de estender a mão aos cansados, nego a existência de Deus, EM MIM, por viver como se não houvesse Deus. Afinal, o ETERNO é o Deus imanente, que, estando em todos, age por meio daqueles que são sensíveis à Sua presença e lhe reconhecem a paternidade. Pois somente os que podem ver a Deus como pai, podem reconhecer os homens como irmãos e exercer a fraternidade. Por outro lado, tendo ciência de que tudo provêm de Deus, e de que n’Ele vivemos, existimos e nos movemos, não podemos pensar que somos maiores do que Ele. Se Ele é Deus, cabe às Suas criaturas adorá-lO, agradecidas pela vida concedida e pelo tempo de sua existência. A morte não nos causaria tamanha dor se reconhecêssemos que somos como erva, e que só o Senhor é eterno. Assim, falaríamos como Jó: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei: o SENHOR o deu e o SENHOR o tomou; bendito seja o nome do SENHOR (Jó 1:21). ALEXANDRE RODRIGUES Ministério Apostólico de Volta à Palavra

Quinta, 16 Abril 2015 13:27

ESTUDO EXEGÉTICO DE HEBREUS 6:4-8

A esse respeito temos muitas coisas que dizer e difíceis de explicar, porquanto vos tendes tornado tardios em ouvir. Pois, com efeito, quando devíeis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus; assim, vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido. Ora, todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, porque é criança. Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal. Por isso, pondo de parte os princípios elementares da doutrina de Cristo, deixemo-nos levar para o que é perfeito, não lançando, de novo, a base do arrependimento de obras mortas e da fé em Deus, o ensino de batismos e da imposição de mãos, da ressurreição dos mortos e do juízo eterno. Isso faremos, se Deus permitir. É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia. Porque a terra que absorve a chuva que frequentemente cai sobre ela e produz erva útil para aqueles por quem é também cultivada recebe bênção da parte de Deus; mas, se produz espinhos e abrolhos, é rejeitada e perto está da maldição; e o seu fim é ser queimada. Quanto a vós outros, todavia, ó amados, estamos persuadidos das coisas que são melhores e pertencentes à salvação (Hb 5:11 – 6:9)

Esse texto de Hebreus faz parte de um grupo de textos bíblicos chamados de difícil interpretação. Sua complexidade encontra-se nos hiatos históricos, que nos separam de sua elaboração, e que precisam ser superados com a construção de pontes hermenêuticas. O modo de ser e de perceber o mundo dos tempos bíblicos não corresponde à visão de mundo da contemporaneidade. Verdadeiros abismos separam o mundo de então do mundo pós-moderno. A hermenêutica fenomenológica e ontológica cumpre, pois, o papel de reconstruir a visão e o entendimento de textos do passado e de recuperar o seu sentido original, conforme foram escritos por seus autores e recebidos pelos destinatários imediatos.

A aplicação de princípios hermenêuticos levar-nos-á ao tempo da epístola aos Hebreus, fazendo-nos perceber os conflitos e vicissitudes de então. Emprestar-nos-á também o modo de ser e de perceber o mundo cristão do primeiro século. Assim, os temas e as ideias da epístola já não nos soarão estranhos nem deixarão dúvidas quanto aos seus reais significados.

A interpretação que não busca no texto e contexto o seu próprio significado não é digna de confiança. A Teologia contemporânea ignora a reconstrução histórica dos sentidos e preenche as lacunas do tempo com o lixo dos preconceitos doutrinários. Estes são arranjados mediante correntes de pensamentos, comprometidas – não com a verdade – mas com segmentos facciosos, manifestados isoladamente em detrimento ao todo das Escrituras. Por isso, é necessário identificarmos os contextos do texto em questão, os quais gravitam em torno dele, imprimindo-lhe significados. Geralmente o texto consiste numa pequena fração, ao passo que os contextos constroem-lhe um cenário propício para que possa significar aquilo que o seu autor deseja.

Entremos, pois, no mundo judaico-cristão do primeiro século, sob a liderança do Espírito Santo, e discirnamos o significado de Hebreus 6:4-8, seguindo a ordem disposta na epístola.

O CONTEXTO GERAL de Hebreus pode ser resumido em uma expressão: mudança dispensacional. Esta palavra (dispensação) significa basicamente duas coisas: “período de tempo” e “administração”. Neste caso, a ideia geral da epístola consiste em proclamar a mudança de tempo e, consequentemente, mudança administrativa, de acordo com a economia de Deus. Muda-se o tempo, muda-se também a forma de administrar e os seus elementos.

Logo no primeiro capítulo, encontramos a declaração de mudança no modo de falar de Deus: falava o Senhor, outrora, pelos profetas, nestes últimos dias nos fala pelo Filho (Hb 1:1-2). E assim, com a encarnação do Verbo, os elementos da antiga dispensação foram suplantados por outros a eles superiores, como claramente se diz: “remove o primeiro para estabelecer o segundo” (10:9). Deste modo temos: uma nova aliança (8:8); uma esperança superior (7:19); um novo descanso (4:8-9); um novo sacerdócio (5:1-10); um novo templo (8:1-2); uma nova lei (7:12); uma nova oferta e um novo sacrifício (10:5-12).

Todos os aspectos pontuais da carta devem ser interpretados à luz deste contexto geral, levando em conta as suas implicações: o que verdadeiramente aconteceu por ocasião da mudança dispensacional? Como ficam os elementos do antigo sistema, no sentido valorativo, frente aos do da nova aliança? Como os judeus convertidos ao evangelho devem olhar para a antiga dispensação e se relacionar com o seu conjunto de coisas (lei, templo, sacrifícios)? Qual a situação dos judeus que não receberam o sacrifício de Cristo, e que se mantêm ainda oferecendo os sacrifícios no antigo templo?

No caso específico do texto em questão, deve-se considerar três chave-hermenêuticas presentes no texto: a locução “a esse respeito” (5:11); a expressão “por isso” (6:1); e, a afirmativa “é impossível, pois, que aqueles...” (6:4). Vejamos.

O versículo 11 de Hebreus 5 começa com a expressão “a esse respeito”. O tema a ser tratado nos versículos seguintes está lançado. O pronome anafórico “esse” retoma a ideia explanada nos versículos anteriores: o novo sacerdócio, de Melquisedeque, em detrimento ao antigo, de Arão. O fato é que o sacerdócio araônico representava os homens diante de Deus, por intermédio de homens mortais e com sacrifícios meramente simbólicos. Com a nova dispensação, Deus introduziu o sacerdócio de Melquisedeque, tendo o próprio Cristo crucificado e ressurreto como mediador e sacrifício superior e eterno. Este era o assunto acerca do qual o apóstolo declarou ser “difícil de explicar” (5:11).

A dificuldade, entretanto, consistia no fato de os hebreus terem se tornado “tardios em ouvir” (5:11). Depois de 1500 anos, desde a entrega da Lei e dos oráculos divinos até Cristo, já era tempo de os hebreus terem atingido a compreensão das verdades divinas. À semelhança de Nicodemos, considerando-se “mestres”, não podiam entretanto discernir coisas básicas da revelação divina (Jo 3:10 Cp. Hb 6:11). Ainda eram crianças no entendimento, sendo necessário falar-lhes novamente as coisas elementares acerca dos oráculos de Deus (5:12).

A nova dispensação instaurada pela encarnação do Verbo inaugura a era da maturidade, em que aqueles que eram menores alcançam a maioridade. Cristo resgata o homem que estava sob a Lei, tornando-o filho maduro, com vistas ao desfrute de Sua herança (Gl 4:1-7). Assim, posicionalmente, todos os judeus que receberam o espírito de filiação por intermédio da redenção de Cristo atingiram a maioridade. Os demais, entretanto, por terem se tornado tardios em ouvir, permaneceram na condição de criança, apesar do tempo decorrido (5:11). Acontece também que mesmo os judeus convertidos ao evangelho, em razão dos conflitos culturais, tinham profunda dificuldade de compreender sem embaraço as questões relacionadas ao sacerdócio.

Ao introduzir o capítulo 6, o apóstolo o faz com a locução “por isso”, dando a entender as razões por que exorta os crentes nos versículos seguintes: os judeu-cristãos precisavam avançar dos rudimentos da doutrina de Cristo para a sua plenitude e perfeição. Alguma coisa os estava impedindo de avançar. Mas, o que exatamente? Estariam eles tentando lançar novamente os fundamentos antigos, suplantados pelos novos fundamentos da nova aliança? Que fundamentos eram esses e, por que razão arrazoavam a esse respeito?

Pensemos primeiramente um dos problemas que os judeus convertidos a Cristo enfrentavam no primeiro século: a preocupação com a salvação de seus irmãos compatriotas (Rm 9:6; 10:1). A suposta ideia pode ser verificada no texto a partir da presença de dois pronomes distintos, referindo-se à pessoa com quem o apóstolo fala (o interlocutor) e a pessoa-objeto de quem ele está falando. Isso se constata pelo fato de o apóstolo (locutor) se dirigir a um grupo identificado como “vós outros” – 6:9 (interlocutor), referindo-se a um terceiro: “aqueles que...” (6:4). Neste caso, o locutor fala com um grupo de hebreus acerca de um outro grupo. O “vós outros” foram exortados a não lançar de novo fundamentos já ultrapassados. Ao passo que os “aqueles” são os que já não possuíam esperança de salvação, pelo fato de ser impossíveis renová-los ao arrependimento. A motivação dos que buscavam lançar velhos fundamentos era em razão daqueles com quem se preocupavam. Não confundir as referências pronominais é de fundamental importância para não se chegar a conclusão equivocada.

A partir desse pressuposto, entendemos que a ideia dos judeus convertidos à Cristo, frente ao fato da não conversão de seus compatriotas, era a de encontrar justificativas para fazerem defesa “àqueles” (6:4) que não receberam o sacrifício de Cristo. Estes tais cristãos buscavam incluir como fundamento de salvação elementos da antiga dispensação que justificassem a salvação d’AQUELES que não receberam o Messias. Certamente argumentavam o fato de que, embora seus compatriotas não tivessem recebido a Cristo, tinham entretanto o arrependimento de obras mortas (adoração aos ídolos), fé em Deus (não necessariamente em Jesus), batismos (abluções – Hb 9:10) e imposição de mãos, além de crerem na ressurreição de mortos e no juízo eterno. Ora, estas coisas não deveriam mais ser levadas em conta, uma vez que a dispensação mudou, e que, consequentemente mudaram também as bases de salvação, agora presentes somente em Cristo.

Ora, sem Jesus nada disso adiantaria. Agora, o arrependimento deveria ser não mais simplesmente dos ídolos para o Deus vivo, mas do templo e seus arranjos para o Deus encarnado (Mt 3:1-2). A fé não deveria simplesmente ser manifestada quanto ao Deus de Abraão, mas também com respeito ao Filho (Jo 14:1). As diversas purificações batismais e imposição de mãos não tinham mais valor, senão o batismo em nome de Jesus Cristo e o batismo com o Espírito Santo (At 2:38; 8:17). A mera fé na ressurreição dos mortos e a crença no juízo eterno, por si só, nada podiam fazer pelos judeus, uma vez que a bênção da ressurreição e o livramento do Juízo eterno só são possíveis mediante a morte e ressurreição de Jesus Cristo.

A prova de que tal preocupação em lançar velhos fundamentos visava ao alcance dos não convertidos judeus, consiste no fato de a explicação paulina recair sobre os “AQUELES”, de quem é dito não ser possível renová-los ao arrependimento, e não sobre os “VÓS OUTROS”, acerca de quem é declarado estar persuadido das coisas que são melhores e pertencentes à salvação (6:4 Cp. 6:9).

Portanto, para a plena compreensão do texto, é preciso saber primeiramente a quem o pronome “AQUELES” se refere. Conforme o texto, “AQUELES” são os que tiveram cinco experiências descritas nos versículos 4 e 5, a saber: foram iluminados, provaram o dom celestial, participaram do Espírito Santo, provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro. Diante disso, logo alguém dirá: esses são pessoas que apostataram da fé cristã. Inclusive, muitos baseados neste texto, acreditam ser possível que alguém que verdadeiramente crê no evangelho perca a salvação. Entretanto, nem mesmo os arminianos podem crer dessa forma, uma vez que se assim fosse, estaria o texto a afirmar que uma vez caído, seria IMPOSSÍVEL renovar o pecador ao arrependimento. Ou seja, crer dessa maneira seria pregar a fatalidade, afirmando ser impossível o arrependimento depois da queda. Se assim fosse, por que Jesus convida a Sua igreja ao arrependimento, exortando-a: “lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras”? (Ap 2:5). Ora, “AQUELES” a quem se refere o apóstolo, são certamente uma classe de pessoas que cometeram o pecado imperdoável, isto é, o pecado contra o Espírito Santo (Mt 12:32). Para este pecado NÃO HÁ PERDÃO. Daí a impossibilidade de serem conduzidos ao arrependimento.

Mas por que então a afirmação de que eles provaram e participaram do Espírito Santo, da palavra, do dom celestial e dos poderes do mundo vindouro? Bem, exatamente aqui encontramos a chave que nos abre o texto.

Os “AQUELES” referidos no texto são os que estiveram sob uma chuva de graça nos tempos da encarnação e peregrinação do Filho de Deus. São todos aqueles que viveram nos tempos de Cristo e que, mesmo diante de tudo o que viram, ouviram e experimentaram, ainda assim negaram o santo de Deus. Como diz em outro lugar: “De quanto mais severo juízo julgais vós será considerado AQUELE que calcou aos pés o Filho de Deus, e profanou o sangue da aliança com o qual foi santificado, e ultrajou o ESPÍRITO DA GRAÇA” (Hb 10:29).

Quando o Verbo entrou no mundo, manifestou-Se como Luz, que, vinda ao mundo, ILUMINA TODO HOMEM (Jo 1:9). Por isso, foram eles iluminados. “O povo que jazia em trevas VIU GRANDE LUZ, e aos que viviam na região e sombra da morte resplandeceu-lhes a luz” (Mt 4:16). Apesar disso, o mundo não o conheceu (Jo 1:10). E não somente isso, mas também provaram (testaram o sabor – lit.) o dom celestial e participaram (tiveram a dignidade – lit.) do Espírito Santo, na medida em que experimentaram as bênçãos da presença de Cristo no meio deles. Certa ocasião, depois de ter expulsado o demônio de um homem, disse Jesus: “Se eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deus SOBRE VÓS (Mt 12:28). E, apesar disso, não creram n’Ele. Além disso, provaram (testaram o sabor – lit.) a boa palavra de Deus, ao receberem a palavra do reino (Mt 13:19), mas em três terços dos corações, a semente não produziu fruto. E o que dizer do fato de terem eles provado os poderes do mundo vindouro? Ora, esses poderes são o poder de restauração do reino milenar. Naquele tempo, “se abrirão os olhos dos cegos, e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; os coxos saltarão como cervos, e a língua dos mudos cantará...” (Is 35:5-6). Os judeus do tempo de Cristo provaram antecipadamente esses poderes, quando Jesus, no meio deles, realizou todos esses milagres e prodígios de restauração. “E, embora tivesse feito tantos sinais na sua presença, não creram nele” (Jo 12:37).

Sim, tendo “AQUELES” estado debaixo de uma chuva de graça, ainda assim produziram espinhos e abrolhos (Hb 6:8). Produziram em seus corações maldição (Gn 3:17-18), quando fizeram maldito (Gl 3:10) o Deus bendito (Rm 9:5), crucificando-O entre dois malfeitores. E, depois de terem-no matado, voltaram ao templo com o fim de continuarem seus sacrifícios pelos pecados. O que não sabiam, no entanto, é que tendo Jesus realizado, pelo Seu sangue, a remissão de pecados, “já não resta oferta pelo pecado” (Hb 10:18). Os sacrifícios oferecidos a Deus de acordo com a economia veterotestamentária, agora já não mais possuía nenhum valor ou eficácia. De modo que, ao continuar a oferecê-los, depois do sacrifício perfeito de Cristo, eles estão “de novo, crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia” (Hb 6:6). A cada sacrifício realizado no templo, reafirmava-se a rejeição ao verdadeiro sacrifício. Cada vez que um judeu sacrificava no altar de holocausto, crucificava para si mesmo, outra vez, o Filho de Deus. Por suas próprias atitudes, demonstravam que haviam pecado contra o Espírito Santo, cuja obra consiste em conduzir o pecador à fé no Cristo de Deus. Ao negar o Filho, atraem para si a maldição (Gl 3:7-14).

A terra (coração), porém, que absorveu a chuva da graça de Deus, produzindo fruto de arrependimento, essa recebeu a bênção de Deus (Hb 6:7). Estes são os “vós outros”, acerca de quem afirmou o apóstolo: “quanto a vós outros, todavia, ó amados, estamos persuadidos das coisas que são melhores e pertencentes à salvação...” (Hb 6:9). “Aqueles”, porém, são impossíveis de serem conduzidos ao arrependimento (Hb 6:4).

Em contrapartida, os cristão-judeus não deveriam nutrir pelo judaísmo nenhuma admiração. Ao olharem para o templo com todas as suas festas e cultos, assim como para os seus sacrifícios e ofertas, precisavam vê-los como coisas envelhecidas e obsoletas, como verdadeiros rudimentos (Hb 8:13). Deveriam olhar para o Crucificado e concebê-lo como a perfeição e plenitude da verdade revelada. Era necessário que chegassem ao ponto de total desprezo àquilo que já não mais significava no plano de Deus. Como disse o apóstolo Paulo, em outro lugar: “Mas o que, para mim, era lucro...” – ou seja, a circuncisão, a linhagem israelita, a pureza de “raça”, o farisaísmo (enquanto seita mais severa do judaísmo), o zelo e a justiça da lei –, “... isto considerei perda... e o considero como refugo (excremento de animais), para ganhar a Cristo” (Fp 3:5-8). Essa mesma exortação continua a ecoar nos dias de hoje e a exortar os verdadeiros filhos de Deus a abandonarem o antigo testamento enquanto norma de doutrina e prática, e a avançarem para a perfeição e plenitude de Cristo, no novo testamento.

Sábado, 27 Setembro 2014 23:30

SALVAÇÃO FÉ E OBRAS

Sobre a palestra "A salvação Eterna" pode citá-la como pérolas cristãs. Concordo com as colocações sobre a antropocentrismo, evidenciada no renascentismo da idade média e que perdura e se intensifica exponencialmente. 

É inquestionável sobre as citações dadas onde a salvação é por meio de Jesus através da sua graça e pela nossa fé. Mas, creio que devemos ponderar sobre a ação do próprio ser no processo. Se nos tornamos corpo de Jesus devemos agir como tal, caso contrário não estamos nele. Assim, parece lógico relacionar uma causa-efeito entre fé-ação-salvação intercambiáveis. 

Penso que a conduta é fundamental para a salvação diante o pressuposto. Acho que devemos a profundidade da passagem: Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste! Mateus 23:37

Aqui parece que Deus Pai e Deus Filho, mesmo tendo os judeus tendo a fé, não agiram com o coração, não foram retos aos olhos divinos e os negaram. 

RESPOSTA_________________________________________________________________________________

Ponderando acerca de tuas considerações, pareceu-me melhor iniciar estas poucas linhas com uma advertência do apóstolo Paulo: “Estas coisas, irmãos, apliquei-as figuradamente a mim mesmo e Apolo, por vossa causa, para que por nosso exemplo APRENDAIS ISTO: não ultrapasseis o que está escrito [...]” – 1Co 4:6. Esse é um mandamento de Deus, que visa guardar-nos de nossas lógicas e achismos humanos. Isso digo porque por algumas vezes chegaste a conclusões, não a partir das Escrituras, mas de conjecturas, tais como: “creio que”, “parece lógico”, “penso que”. Em vez disso deveríamos falar: “assim diz o Senhor”, “está escrito”, “também está escrito”. Permita-me, pois, levantar algumas observações a respeito da salvação de Deus.

  1. Toda a Escritura, de Gênesis a Apocalipse, declara, alto e bom som, que a salvação de Deus não pode ser adquirida por obras humanas. Eis o que a esse respeito nos diz a Palavra de Deus. As vestes que o homem fez para si (símbolo de autojustificação), por ocasião de sua queda, foram rejeitadas por Deus; em contrapartida, diz a Escritura que “fez o Senhor vestes de peles para os cobrir” (Gn 3:7, 21). Estas duas vestes, a indústria do homem e a de Deus, tipificam dois tipos de justiças, conforme está escrito: “e ser achado nele, NÃO TENDO JUSTIÇA PRÓPRIA, QUE PROCEDE DE LEI, senão a que é mediante a fé em Cristo, A JUSTIÇA QUE PROCEDE DE DEUS, baseada na fé (Fp 3:9). A arca de Noé, por sua vez, outro tipo da salvação (Cf. 1Pe 3:21), demonstra que o homem nada podia fazer para se livrar do juízo, senão apropriar-se do único meio de salvação oferecido por Deus, a arca, a qual representa Jesus Cristo, em Sua morte e ressurreição. E é mister ressaltar que foi pela fé que o patriarca e sua família foram salvos, pela arca, através das águas (Hb 11:7). O mesmo aconteceu no deserto, com o povo de Israel. Ao serem picados por serpentes abrasadoras, nada podiam fazer para se livrarem da morte, exceto olharem para a serpente de bronze suspensa numa haste (Nm 21:9). Foi o próprio Senhor quem identificou tal episódio veterotestamentário com a queda do homem e com a salvação oferecida por Deus: “E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que TODO O QUE NELE CRÊ TENHA A VIDA ETERNA. Veja que, a despeito de quantas obras os filhos de Israel fizessem, nada poderia dar-lhes vida. Somente o olhar para a serpente de bronze dar-lhes-ia vida. Razão por que Jesus declarou, dizendo: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10:10). Não é sem motivo que, em outro lugar, também diz: “...Porque, se fosse promulgada uma lei que pudesse dar vida, a justiça, na verdade, seria procedente da lei” (Gl 3:20). Eis, portanto, a razão porque “... o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois, por obras da lei, ninguém será justificado (Gl 2:16). A vida eterna, portanto, é GRATUITA (Rm 6:23); é um dom de Deus (Ef 2:8); é pela fé, independentemente de obras da lei (Rm 3:28); é pela graça, sem as obras, do contrário a graça já não é graça (Rm 11:5-6); é eterna e não pode ser perdida (Jo 10:28), porque os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis (Rm 11:29); é pela misericórdia divina (Rm 9:15), por causa do grande amor com que fomos amados por Deus (Ef 2:4); estávamos nós mortos quando d’Ele recebemos vida (Ef 2:5) – pela graça sois salvos. Esta graça salvífica significa literalmente de graça, sem nada nos cobrar, como está escrito: “Ora, ao que trabalha, o salário NÃO É CONSIDERADO COMO FAVOR, e sim COMO DÍVIDA. Mas, ao que NÃO TRABALHA, porém CRÊ naquele que JUSTIFICA O ÍMPIO, a sua FÉ lhe é atribuída como justiça” (Rm 4:4-5). Por isso a resposta de Paulo ao carcereiro, quando este lhe perguntou acerca do QUE FAZER PARA SER SALVO: “crê no Senhor Jesus, e serás salvo...” (At 16:31). Mas, para os que preferem pagar por si mesmos o preço que Jesus já pagou na cruz do Calvário, resta-lhes a morte eterna, pois o salário do pecado é a morte (Rm 6:23). Não qualquer outra coisa. Não se paga a dívida eterna com usos e costumes (moral), até porque estas coisas não resolvem o problema da natureza pecaminosa no homem (Cl 2:23); não se paga a dívida eterna do pecado com conduta, haja vista que a conduta requerida por Deus é FRUTO DO ESPÍRITO (Gl 5:22); são obras que DEUS PREPAROU DE ANTEMÃO, para que andássemos nelas (Ef 2:10); são obras feitas em Deus (Jo 3:21). Não são portanto humanas, nem têm no homem a sua origem. São divinas: ouro, prata e pedras preciosas (1Co 3:12). As obras humanas são um como trapos de imundícies (Is 64:6); são madeira, feno, palha (1Co 3:12); pois o que é nascido da carne é carne, mas o que é nascido do Espírito é espirito (Jo 3:6). Ufa... Ficaria aqui horas a fio citando todo o testemunho das Escrituras acerca da salvação, que pertence ao Senhor (Jn 2:9). Mas... avancemos.

  1. Quando tu disseste acerca da “ação no próprio ser NO PROCESSO” falaste uma verdade. Entretanto, não significa que tal participação garanta a salvação. A Escritura adverte aos crentes quanto ao desenvolvimento da salvação (Fp 2:12); a tomar posse da vida eterna (1Tm 6:12); a ser fiel até a morte (Ap 2:10); a negar a si mesmo, tomar a sua cruz e seguir ao Senhor (Mt 16:24); todavia, todas essas responsabilidades, se cumpridas ou não, não podem dar ou tirar a salvação, uma vez que “quem crê em mim – disse Jesus – não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (Jo 5:24). Da morte viemos; na vida nos encontramos. Quais consequências então nos traz a diligência ou a negligência? Ora, basta lermos o que está escrito a esse respeito: “Se permanecer a obra de alguém que sobre o fundamento edificou, esse RECEBERÁ GALARDÃO; se a obra de alguém se queimar, SOFRERÁ ELE DANO; mas ESSE MESMO SERÁ SALVO, todavia, como que através do fogo” (1Co 3:14-15). Veja: se aprovadas suas obras, galardão; se reprovadas, dano. Esse mesmo, porém, será salvo. Ou seja, ambos são salvos, não por fazerem boas obras, porque, para o que as fez, não diz que será salvo por isso, mas, que receberá galardão, recompensa, prêmio; e àquele, de cuja obra foi reprovada, não se diz que será condenado por isso, mas que, sendo salvo, receberá dano, como consequência de sua reprovação. Ambos são salvos porque estavam no fundamento (1Co 3:11). Para o que procedeu com obras aceitas por Deus, além de salvo, galardão; para o que não procedeu corretamente, embora salvo, sofrerá a disciplina do Eterno. E isso é para que não seja ele condenado com o mundo (1Co 11:32); será disciplinado para aproveitamento, a fim de se tornar, enfim, participante da santidade do Senhor (Hb 12:10); receberá poucos ou muitos açoites, tudo vai depender do quanto ele recebeu de Deus (Lc 12:47-48); será trancado na prisão, e só sairá de lá depois que “pagar o último centavo” (Mt 5:26). Uma coisa é certa: “aquele que começou boa obra em vós, há de completa-la até ao dia de Cristo Jesus (Fp 1:6). Ele começou; Ele terminará. Ainda que tenha que disciplinar os seus filhos, como diz a Escritura: “se violarem os meus preceitos e não guardarem os meus mandamentos, então, punirei com vara as suas transgressões e com açoites a sua iniquidade. Mas jamais retirarei dele a minha bondade, nem desmentirei a minha fidelidade. Não violarei a minha aliança, nem modificarei o que os meus lábios proferiram” (Sl 89:31-34). Tais palavras, ainda que se referindo imediatamente a Davi, trazem os princípios da fidelidade de Deus quando pactua com o seu povo: 1) não retira a Sua bondade; 2) não desmente a Sua fidelidade; 3) não viola a Sua aliança; 4) não modifica o que Seus lábios proferem. “Eu o Senhor não mudo” (Ml 3:6). “Quando Deus fez a promessa a Abraão, visto que não tinha ninguém superior por quem jurar, jurou por si mesmo, dizendo: Certamente, te abençoarei E te multiplicarei [...]. Por isso, Deus, quando quis mostrar mais firmemente aos herdeiros da promessa a imutabilidade de seu propósito, se interpôs com juramento, para que, mediante duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, FORTE ALENTO TENHAMOS NÓS que já corremos para o refúgio, a fim de lançar mão da esperança proposta; a qual temos por âncora da alma, segura e firme e que penetra além do véu, onde Jesus, como precursor, ENTROU POR NÓS, tendo-se tornado sumo sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque” (Hb 6:13-20).

  1. O fato de estarmos em Cristo, como também disseste, não implica que não podemos pecar. Nem tampouco se pode afirmar que, se pecarmos, não estamos n’Ele. Desde que recebemos o Espírito de filiação, a carne passou a militar contra o Espírito, e o Espírito contra a carne (Gl 5:17). Se andarmos no Espírito, o fruto será amor, paz, alegria, longanimidade etc (Gl 5:22-23). Se, entretanto, andarmos segundo a carne, o resultado será aquele que se encontra em Gl 5:19-20, as obras da carne. O fato de estarmos em Cristo significa simplesmente que nascemos de Deus, como está escrito: “Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, SE, DE FATO, O ESPÍRITO DE DEUS HABITA EM VÓS. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8:9). Esses, entretanto, que têm o Espírito de Cristo, e, consequentemente, estão n’Ele, podem ainda pecar, andar na carne, cometendo as obras da carne (prostituição, lascívia, glutonaria, bebedice, inveja etc.), sabendo, contudo, que compareceremos perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem o mal que tiver feito por meio do corpo (2Co 5:10). Esse bem e mal aqui referidos certamente não se referem a vida ou morte eternas; senão ao galardão ou disciplina conforme acima explicado.

  1. De todo modo, temos a certeza de que, nós os que cremos, estaremos plenamente salvos quando entrarmos na eternidade. Tal segurança apoia-se nas palavras de Deus: “Fiel é o que vos chama, o qual também o fará” (1Ts 5:24). Afinal, o mesmo Deus que nos reconciliou consigo mesmo, o Deus da paz, há de nos santificar completamente, espírito, alma e corpo (1Ts 5:23). Se Deus não poupou o Seu próprio Filho, antes por nós O entregou, quando ainda éramos pecadores (Rm 5:8), porventura não nos dará graciosamente todas as coisas? (Rm 8:32). Certamente. Não porém sem nos salvar completamente. Pois, se quando éramos pecadores o Senhor nos justificou com o Seu sangue, muito mais agora, estando já reconciliados com Ele, seremos salvos pela Sua vida (Rm 5:10). A vida de Deus nos Seus filhos há de salvá-los completamente do pecado. Ele começou... Ele terminará. Para isso Ele nos concedeu o penhor do Espírito, a garantia de que em breve seremos resgatados, finalmente, como Sua propriedade, para o louvor da Sua glória (Ef 1:14).

No amor de Cristo,

Bispo Alexandre Rodrigues

Sábado, 27 Setembro 2014 21:44

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