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O Paradoxo da Previdência: ganhar sem trabalhar e trabalhar sem ganhar

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O Paradoxo da Previdência: ganhar sem trabalhar e trabalhar sem ganhar

“Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre”

(João Grilo)

Muito se tem debatido nestes últimos dias acerca das reformas da Previdência Social. Muitas são as vozes que esbravejam em defesa do futuro. Medo do porvir? Incerteza sobre o que vem à frente? Anseio por uma velhice segura, em que se tenha os meios que garantam o custeio de remédios, de vestimentas, de moradia, de boa alimentação? Guardadas as devidas proporções, considero isso justo e precavido.

Tal precaução, entretanto, reflete a pseudocerteza de que estaremos vivos para desfrutar do fruto de nosso trabalho. Nada há de fatalidade nessas minhas considerações. O fato é que a única certeza que temos, a morte, não nos assombra tanto, o que faria com que nos preocupássemos com o único mal irremediável, como diria João Grilo.

A morte não nos assombra, digo, pelo menos enquanto não percebemos que ela já ronda a nossa casa. Se tivéssemos tal percepção, de que a morte nos acompanha desde o berço, aguardando apenas uma desculpa para nos ceifar, trabalharíamos arduamente para garantirmos uma boa previdência no mundo por vir. Mas não... vivemos como se fôssemos imortais e não nos damos conta de que podemos morrer como se nunca tivéssemos vivido. Não raras vezes vivemos essa vida fugaz, enganando-nos com a nossa aparência, pensando ser o que não somos.

As palavras de Antônio Vieira nos advertem nesse sentido: 

“Ah! serpentes astutas do mundo, vivas, e tão vivas! Não vos fieis da vossa vida nem da vossa viveza; não sois o que cuidais nem o que sois: sois o que fostes e o que haveis de ser. Por mais que vós vejais agora um dragão coroado e vestido de armas douradas, com a cauda levantada e retorcida açoitando os ventos, o peito inchado, as asas estendidas, o colo encrespado e soberbo, a boca aberta, dentes agudos, língua trifitricada, olhos cintilantes, garras e unhas rompentes, por mais que se veja esse dragão já tremular na bandeira dos lacedemônios, já passear nos jardins das hespérides,já guardar os tesouros de Midas, ou seja, dragão volante entre os meteoros, ou dragão de estrelas entre as constelações, ou dragão de divindade afetada entre as hierarquias... se foi terra, e há de ser terra, éterra; se foi nada, e há de ser nada, é nada, porque tudo o que vive neste mundo é o que foi e o que há de ser. Só Deus é o que é.”

Mas, onde está a ciência de tão grande engano se não na nossa “fé”, que antes parece mais dúvida do que fé verdadeira. Hesitamos diante do Evangelho quando se nos surgem oportunidades. Olvidamos as palavras do Cristo que foram ditas com tanta propriedade: “Buscai, pois, em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça”. Daí, parafraseando Shakespeare, perdemos o bem que poderíamos ganhar, com medo de tentar, porque as nossas dúvidas são traiçoeiras.

Deixamos de nos lançar no caminho do Evangelho por não acreditarmos verdadeiramente que a palavra da cruz é o único caminho de vida eterna. Hesitamos morrer para o ego porque não conseguimos enxergar que a verdadeira vida sucede a morte. Não sem razão nos aferramos àquilo que é banal, passageiro, fugaz, desde um vil objeto até sentimentos e mágoas de um passado que já não existe. Deixamos escapar o presente em que poderíamos garantir o futuro, mediante o viver de uma vida piedosa, porque somos incapazes de vislumbrar os muitos frutos decorrentes da entrega e da resignação.

O maior problema, todavia, encontra-se no querer-fazer, coercitivamente, ameaçados pela doutrina, numa busca inútil de parecermos com algo que não somos, quando o Evangelho nos convida a ser. Se queres ser, permita, a partir de hoje, que sua mente seja redirecionada, reconfigurada, mediante o renovar do entendimento, pelo Evangelho, que gera transformação. Assim, não mais hesitarás, nem duvidarás, nem se frustrarás, nem prodigalizareis o presente tempo, único que pode garantir o amanhã. Será grande o nosso trabalho aqui, e não menor a recompensa, ao adentrarmos os portões da morte: um pelo qual se sai da vida, e outro pelo qual se entra na eternidade.

Alexandre Rodrigues

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