Topo DVAP2

FÉ E OBRAS NA EPÍSTOLA DE TIAGO

Avalie este item
(14 votos)

O livro de Tiago, o primeiro do novo testamento, desde o primeiro século tem sido alvo de acirradas discussões no campo da crítica literária bíblica. Quantas são as asseverações a seu respeito, tantos são os equívocos de interpretação deste protoevangelho nas escrituras, com raríssimas exceções. Os erros em torno desta epístola cruzam o horizonte, do oriente ao ocidente, desde a suposta salvação por meio de obras até a sua radical exclusão do cânon neotestamentário.

Em razão disso, muitos o tem, entre outras porções das Escrituras, como fator antagônico e discordante da suprema verdade das Escrituras: “o justo viverá pela fé” (Hc 2:4; Rm 1:17). Este texto áureo é reescrito em muitos outros lugares, até mesmo em diversas outras literaturas sapienciais e místicas. Não obstante, de tempo em tempo, lá vem o “Tiago” com as mesmas perguntas: existe salvação somente pela fé, sem a participação de obras? Ora, para quem crê na indubitabilidade das Escrituras, basta a resposta explícita de Paulo: “Tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ELE MESMO SER O JUSTO E O JUSTIFICADOR DAQUELE QUE TEM FÉ EM JESUS. Onde, pois, a jactância? FOI DE TODO EXCLUÍDA. POR QUE LEI? DAS OBRAS? Não; pelo contrário, pela LEI DA FÉ. CONCLUÍMOS, POIS, QUE O HOMEM É JUSTIFICADO PELA FÉ, INDEPENDENTEMENTE DAS OBRAS DA LEI” (Rm 3:26-28). Ora, precisamos de resposta mais clara e explícita do que essa? Certamente, não. Entretanto o “Tiago” vez ou outra está de volta, o qual não é outro senão a velha tradição de uma teologia deturpada, cuja raiz radica-se no primeiro homem caído, Adão, gerando uma linhagem arminianista, que passa por Caim, ante e pós-diluvianos, israelitas legalistas, fariseus e saduceus, igreja de Jerusalém – representada pelos fieis da circuncisão –, igreja romana em toda a idade média, igrejas evangelicalistas (pentencostais e neopentecostais), e não raras reformadas, que, com o tal do reavivamento, manifestaram que o DNA da prostituta continua em suas filhas.

Mas qual a razão para tantos problemas em torno da epístola de Tiago? Bem, o problema, como sempre, encontra-se na tradicional leitura fragmentada. O homem ocidental não aprendeu a ler o todo; está sempre a balbuciar fragmentos, porque a miopia não lhe deixa ver o fio de prata que vitaliza as partes e gera a unidade de pensamento do livro. Imagine o leitor tomando apenas o versículo 25 do capítulo 2 de Tiago: “De igual modo, não foi também justificada POR OBRAS a meretriz Raabe, quando acolheu os emissários e os fez partir por outro caminho? ”. Ora, quais foram as obras de Raabe que a justificou diante de Deus? Cite-me apenas uma obra, já que os que tomam Tiago por pretexto, têm sempre em vista obras materiais e tangíveis em complemento à fé. Qual obra foi realizada pela famosa cortesã para que a sua fé fosse completada? Seria porventura este o tema da epístola: A insuficiência da fé em face da salvação, e sua necessidade de ser completada por obras humanas? Ou, a fé por si só não salva; exceto se acompanhada de obras? Estaria a Escritura dicotomizando fé e obras, pondo-as numa relação de complementaridade? Bem, se assim fosse, coitada de Raabe. Certamente não figuraria ao lado de Abraão.

Vejamos, então, a partir de uma visão holística da epístola, permitindo que o fio de prata costure e vitalize cada parte do texto, qual o real sentido das palavras de Tiago. Não faremos aqui uma espécie de comentário do livro, o que demandaria um tempo de que não disponho no momento. Tocarei brevemente nos pontos críticos com o fim de elucida-los. Para tanto, fá-lo-ei enumerativamente, a fim de que não se perca a construção do pensamento.

1. TEMA DA EPÍSTOLA. O livro em discussão, por paradoxal que pareça, não trata de obras humanas. (IMAGINO O ESPANTO DO LEITOR). Como não, se sempre que se quer falar de obras em relação dicotômica à fé se usa esta missiva? Bem, aqui está o ponto nevrálgico, que, se não compreendido, nada se saberá acerca desta epístola. O tema de Tiago é A FÉ. Poderíamos melhorar este tema colocando-o da seguinte maneira: A verdadeira fé, que procede de Deus, e sua vitalidade orgânica, a qual engendra o poder gerador das virtudes divinas, no homem. Explico. Tiago se dirige a um grupo de pessoas, teoricamente salvas. Digo teoricamente porque não se sabe de fato se o espírito de tal pessoa é ou não regenerado (Rm 8:9-10). Bem, na teoria, grosso modo, Tiago fala em termos orgânicos de regeneração: segundo o seu querer, ele nos GEROU PELA PALAVRA DA VERDADE... (1:18). Partindo desse pressuposto, espera-se que esta vida frutifique para Deus. A salvação de Deus não consiste em meros aspectos judiciais de perdão de pecados, com vistas a livrar o homem do fogo eterno e garantir-lhe um lugar no paraíso. A bem da verdade, a redenção judicial constitui-se em um meio para que a salvação de fato ocorra. A salvação, neste sentido, é puro espírito e vida, dentro do homem, organicamente livrando-o das paixões do mundo, na medida em que o homem se torna coparticipante da natureza divina (2Pe 1:4). E a fé, neste contexto, é a tecla que aciona o poder divino no espírito humano, a fim de liberar o fluxo desta vida poderosa, para ser manifestada na carne (1Tm 3:15-16). Quando, entretanto, essa vida não manifesta seus ricos atributos de bondade, amor, misericórdia, perdão, justiça – vejam as obras que aqui cito –, o que fazer? Exigir que o homem as faça para que tenha ele a garantia de salvação? Não. Absolutamente. O problema certamente está na fé, não nas obras. É neste ponto que Tiago faz o grande questionamento de sua epístola: “Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém DISSER que tem fé, mas não tiver obras? (2:14). Observem que não se afirma aqui que aqueles têm fé. Mas é dito que ELES DIZEM QUE TEM FÉ. Trata-se de uma fé meramente professa, industrializada, manufaturada pela religião. Como está dito também em 1Jo 4:20: “Se alguém DISSER: amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso...”. Observa-se que se trata de mera profissão sem a devida substância vital interior. Assim, diante de uma fé artesanal, Tiago questiona, dizendo: “...pode, acaso, SEMELHANTE fé salvá-lo? ” (2:14). Oh, vocês viram isso? Tiago afirma categoricamente que a FÉ É QUE SALVA. Questiona, todavia, se aquele tipo de fé salival, sem nenhum alento, teria o poder de salvar alguém. O contrário também é verdadeiro: se uma fé meramente doutrinária não pode salvar o homem, a fé orgânica de Deus, engendrada no coração do eleito, pode salvá-lo completamente. Mas salvá-lo de que? Ora, da “impureza e acumulo de maldade...” (1:21), que faz acepção de pessoas (2:1), que menospreza o pobre (2:6), que fala desmedidamente dos outros (3:1-12; 4:11), que o faz confiar nas riquezas (5:1-3). A pergunta aqui é a seguinte: tu que hoje lês estas palavras tens sido salvo pelo poder da fé viva e orgânica de Deus, ou tens se frustrado nas tuas vãs tentativas de fazer obras para Deus, com o fim de seres salvo escatologicamente, na medida em que verificas que não podes PERMANECER em todas as coisas escritas no livro da lei para praticá-las? (Gl 3:10). Sabendo que, a despeito de todas as tuas forças e sinceridade, se guardardes toda a lei, mas tropeçares em um só mandamento, tornar-te-ás culpado de todos (Tg 2:10). Bem, o questionamento aqui é acerca da NATUREZA DA FÉ. Se a fé é viva e orgânica, é a verdadeira fé que vem de Deus (Ef 2:8). Se é meramente humana, professa, industrial, artesanal, religiosa, impotente, é, por assim dizer, uma fé morta. Assim é, porque a fé genuína tem espírito. A fé de Deus possui embrião; cresce; floresce; frutifica.

2. OBRAS. Sim, “porque, assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta” (2:26). A fé é aqui representada metaforicamente pelo corpo, e as obras, pelo espírito. Portanto, a fé genuína tem espírito, o qual logo se manifestará exteriormente na forma de obras. Não qualquer tipo de obras, como querem os defensores das obras em detrimento da fé. Mas falamos aqui das obras de Jesus Cristo (Ap 2:26); das obras feitas em Deus (Jo 3:21); das obras de ouro, prata e pedras preciosas (1Co 3:12); das obras que Deus preparou de antemão para que andássemos nelas (Ef 2:10). São, em suma, o FRUTO DO ESPÍRITO. É o fruto do Espírito Santo em nós. Não o nosso fruto para o Espírito Santo. Assim, não precisamos de obras para sermos salvos. Antes, somos salvos pela graça, mediante a fé, PARA as boas obras. Ou seja, as obras aqui são resultados da salvação, não o meio de alcança-la. São o fruto da fé, não um elemento diferente, de outra natureza, com vistas a ser o seu complemento; mas a sua expressão e manifestação.

3. Sim. As obras verdadeiras são a manifestação da fé. Ou seja, as obras são A FÉ MANIFESTADA. Como Tiago mesmo diz: “MOSTRA-ME (repare no verbo) a tua fé sem as obras...” (2:18). Pergunto: está aqui a se exigir obras enquanto complemento da fé? Certamente, não. Mas está dito: não é possível demonstrar a fé interior, senão mediante a sua própria manifestação exteriormente. Tiago continua: “e eu, com as minhas obras te mostrarei a minha fé” (2:18). Enquanto uns dizem ter fé, não a tendo – por isso não a pode demonstrá-la –, outros, em silêncio, demonstram a fé que possuem, embora não gritem pelas praças. Este foi o caso de Abraão, como está escrito: Abraão creu em Deus... (Gn 15:6). Mas, mesmo tratando-se de Abraão, surge uma incógnita: será que o crer de Abraão era uma fé professa ou verdadeira? Era viva ou industrializada? Orgânica ou religiosa? Bem, Tiago responde, dizendo: “... com efeito, foi pelas obras que a fé se CONSUMOU” (2:22). O termo grego para a expressão “CONSUMOU” é teleioo, que quer dizer TORNAR CHEIO. A fé de abraão progrediu do perigeu ao apogeu. A obra aqui referida não é um segundo elemento adicionado a uma fé mórbida e inoperante, insuficiente por natureza. Não. Trata-se da glorificação da fé em seu estágio consumado. Assim como o fruto é a manifestação final da semente, assim são as obras genuínas provenientes da genuína fé. Tiago não discorda de Paulo. Pelo contrário, ratifica-o. O mesmo ocorreu com Raabe. Seu gesto de acolher espias e de mentir aos seus compatriotas foi uma manifestação da fé interior do seu coração no Deus vivo (Js 2:8-11). É bem verdade que tal manifestação da fé de Raabe foi muito mais precoce que a de Abraão. Entretanto, deve-se analisar que, assim como é maior ou menor o tempo necessário para uma planta frutificar – se mangueira, muitos anos; se tomate, bem menos –, assim também a fé. Não se pode comparar a oliveira que foi Abraão, com a simples roseira que foi Raabe. Todavia, em ambos os casos se vê o mesmo princípio: a fé viva e orgânica que se desenvolveu do seu estágio embrionário para o da frutificação. De sorte que, assim como o ouro enquanto na terra é chamado de mineral e, uma vez extraído, é denominado minério, assim a força operante da vida regeneradora de Deus no homem: quando pulsante no interior do coração, chamamos fé; quando manifestada exteriormente, denominamos obras.

Resta-nos saber se nós que lemos este artigo possuímos uma fé genuína ou meramente uma fé professa. A resposta passa por duas instâncias: a primeira é se possuímos alguma obra (pois elas manifestarão a nossa fé); a segunda diz da natureza da obra, do ponto de vista qualitativo, não, quantitativo. Se possuímos obras, passemos logo para a segunda instância. Que obras você pratica? Seria as obras quantitativas da religião, inventadas pelos homens que procuram aprisionar os filhos de Deus? Ora, estas obras da religião a que me refiro são as ABSTINÊNCIAS DE COISAS LÍCITAS, que fazem parte da vida humana na terra. Os líderes perversos tomam estas coisas e as transformam em pecados, os quais com o tempo se tornam verdadeiros pecados culturais, tais como, tipos de roupas, lugares, comidas, bebidas, músicas, que “não têm poder algum contra a sensualidade” (Cl 2:20-23). Estas obras estão no âmbito quantitativo e não corresponde às obras de Deus. Na religião, quanto maior o número de obras feitas, maior é o prestígio na comunidade e maior o orgulho de ser melhor que os demais. No reino de Deus, porém, NÃO É ASSIM. As obras aqui são medidas qualitativamente. São obras que, embora feitas exteriormente, nascem e radicam-se no coração. É como disse Jesus. “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5:14-16). A lâmpada encontra-se no espírito humano (Pv 20:27), mas sua luz alcança o mundo exterior. Os raios das boas obras fulguram no mundo, mas originam-se e se alimentam da fonte interior, onde habita o Espírito de Deus. Estas obras não podem ser realizadas pelo esforço humano. São, como disse Jesus, justiça e misericórdia (Mt 23:23). E como disse Paulo, são entranhados afetos de misericórdia, que se manifestam nas mais variadas formas de amor. São obras do Espírito. São obras de Jesus Cristo. São obras feitas em Deus. Quem está apto a receber este conceito?

Ler 2135 vezes

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*). Não é permitido código HTML.