Eu, nós, ele... A angústia da Verdade

Eu, nós, ele...

A angústia da Verdade

Eis o que descobri: os nós que cegam os olhos e os atam para os manterem cerrados à Verdade causam em nós profunda sensação de bem-estar e segurança. Isso, entretanto, só percebi quando, debaixo de meus pés, se me abriu um abismo no qual todas as minhas certezas se perderam. Mergulhei profundo a sua procura. Foi aí que descobri que, quanto mais eu as buscava, na inútil ânsia de tê-las de volta, uma angústia se formava em meu peito. Primeiramente uma angústia em razão da perda de meus fundamentos...

Meus olhos ainda se mantinham cerrados, pois os nós não me permitiam ser eu. Na minha singularidade, enquanto criatura distinta das demais, vivia o pluralismo pessoal, religioso, amarrado a ideias alheias. Na verdade – hoje digo seguramente –, eu não era eu, pois naquele tempo falava em nome de muitos. Porém os nós sempre deixam uma ponta, um fio.

Então, no desespero de reencontrar minhas convicções, no esforço de abrir bem os olhos a fim de enxergá-las, senti a ponta do fio que os atava. Decidi puxá-la. Doeu. Sangrou. Pois o tempo em que os nós se mantiveram trancafiando minha visão, fê-los enraizarem-se de tal modo nas minhas pálpebras, que já não se desatavam com facilidade sem tirar um pedaço de mim. Porém, logo percebi que os pedaços que de mim eram arrancados, não eram minha carne, mas os nós, de sorte que pouco a pouco eu era cada vez menos nós e mais eu. Daí a solidão...

Clamei à Rocha, ao Alto, e ele me respondeu: Eu Sou...

Tornei-me um nada. Pois, agora, a partir de tal revelação, eu já não era eu, pois Eu só há um, e também já não era nós, pois os nós desfizeram-se. Isto fez todo sentido para mim: não ser. Foi então que tudo começou a ganhar sentido nEle.

Precisava reler as Escrituras, a vida, o mundo, a verdade, tudo a partir dEle. E na medida em que revia tais e quais conceitos, tendo a Rocha por único fundamento, meus pés foram se firmando. No começo, ainda titubeante... hesitante... até que a solidez da Rocha fez meus pés se sentirem seguros.

A paz que excede todo entendimento encheu meu coração, e nEle encontrei refúgio.

A angústia, porém, continuava pulsando dentro de mim. Não mais a primeira angústia – é verdade – de me vê desfazendo-me num nada, sem eu e sem nós; mas a angústia de não mais me encontrar entre os pronomes. (Ainda não inventaram um pronome para os que não figuram como ente entre pronomes pessoais). Agora, por conseguinte, a angústia de andar solitário entre os homens. A angústia de falar e não ser ouvido; de gritar e não ser escutado; de correr e não ser percebido; de enxergar e não ser acreditado.

Ei!!! Alguém aí está me vendo? Alguém aí está me ouvindo?

 

 

 

Alexandre Rodrigues

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