Confissão Olhos Apocalípticos

Confissão

Olhos Apocalípticos

 

Ontem, deparei-me com uma situação inusitada e não menos embaraçosa. Conheci uma pessoa, homem bondoso, gentil, manso. Estive com ele durante umas quatro horas, tempo suficiente para eu perceber nele virtudes tão raras em nossos dias.

No primeiro momento, vi nele um cristão. Não somente pelos atributos manifestados, mas porque falava em nome de Deus, de Cristo, além de cantar, com muita alegria e exultação, canções que, embora não evangélicas, falavam de Deus como Criador e Salvador. Talvez por isso é que uma sintonia muito grande nos uniu imediatamente. Logo já havia grande identificação entre nós. Após algum tempo, pensei ser ele um cristão católico, haja vista ter-me informado que cuidava de uma igreja católica, não muito longe de onde estávamos. Falei, então, comigo mesmo: bem... é católico, mas é cristão. Passadas mais algumas horas, momentos antes de nos despedirmos, veio-me um golpe de meu próprio coração, enganoso. O fulano já não me era mais um cristão, tampouco um cristão católico, mas apenas um indivíduo que se apresentara, finalmente, como um candomblecista.

Meu Deus! De repente, todos os meus bons pensamentos acerca do dito-cujo desapareceram. Num único momento, esqueci completamente de tudo o que até então havia visto nele de excelente e que meu coração, silenciosamente, elogiara.

Desconcertado, me despedi. Foi então que a silenciosa voz do Espírito começou a falar mansamente dentro de mim.

“Olha para ti, tu, que te chamas a ti mesmo de cristão e que te glorias por seres chamado de filho de Deus! Não deverias manifestar, naquele momento, o Espírito de Cristo, amando aqueles que, por razões diversas e desconhecidas, não atingiram o nível de conhecimento da Verdade, como julgas havê-lo alcançado? Por que perde o brilho, diante de teus olhos, aqueles por quem Cristo morreu, pelo simples fato de pertencerem a um curral diferente do teu? Já te não servem mais os atributos do bem por NÃO SEREM estes uma bandeira que engradece o teu seguimento? Não estranhas o fato de não teres ou não manifestares os atributos divinos, presentes e manifestados naqueles a quem julgas? Responde-me! Onde jazem o amor, a luz, a vida? São estes, porventura, propriedades desta ou daquela religião?

“Ah, pobre cristão! Não faz o Criador diferença entre criatura e criatura. Sendo eterno o Deus de todos os homens, não estando preso ao tempo, não os julga pelo momento em que vivem. Deus sabe que os homens são prisioneiros do tempo e que cada um, individualmente, aguarda o tempo de sua visitação. Não são os homens sempre os mesmos nem são o que são. Os homens são para Deus aquilo que haverão de ser. Mas quando tu os olhas, com olhar fragmentado e ácido, esquecendo-te de olhar para ti mesmo, só podes ver os homens como árvores. Falta-te o segundo toque nos olhos, a fim de que os vejas como homens.

“Vem! Sobe para aqui e te mostrarei o que são os homens. Desprenda teus pés do chão, e verás a aurora do novo tempo.”

Obedeci.

“Vê primeiramente a humanidade restaurada. Todas aquelas ovelhas estiveram, algum dia, nos mais diversos apriscos – malcheirosos, estreitos, escassos, precários –, sob o cetro de ladrões, de lobos, de perversos. Mas olha agora como estão nédias, salubres, refeitas. O bom Pastor as buscou e as fez ovelhas do seu pastoreio.

“Vê agora a Nova Jerusalém, aqui em cima. Todo este ouro, estas pérolas e estas pedras preciosas foram, outrora, homens-barro. O Pai os transformou de barro em pedra, de pedra em pedra preciosa, e os edificou numa grande habitação, centro do seu governo eterno sobre as nações restauradas.

“Somente com estes olhos de revelação, olhos que transcendem o tempo, é que poderás amar os homens como hoje eles estão. Pois agora podes vê-los como Deus os vê. Porquanto, foi este olhar que moveu o Filho de Deus a vir ao mundo e redimir a humanidade.”

Despertado do sono – grande foi esta noite –, olhei o mundo lá fora, pela janela. O Sol brilhava diferente, e pessoas de todo tipo, andando na rua, sorrindo ou sérias, olhavam para mim como sempre, e eu as olhava diferentemente.

Senti saudade do meu amigo e irmão Durval.

 

Alexandre Rodrigues

 

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