Olhos de serpente e coração de pomba

Olhos de serpente e coração de pomba

Que coisa estranha é essa chamada domínio próprio? O homem que o alcança é certamente bem-aventurado. Terá alcançado o endocarpo do fruto do Espírito.

O SENHOR ensinou a seus discípulos o caminho do equilíbrio nas relações pessoais, sobretudo quando se refere aos seus inimigos ou àqueles que, de alguma maneira, se lhes opõem: “sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas”. Humildade e sagacidade são, pois, embora paradoxais, atitudes complementares e irredutíveis, que não podem faltar a um coração verdadeiramente cristão.

“—Ó, SENHOR! ensina-me este caminho.”

Ensinava o nosso Mestre o caminho das pombas: “se alguém lhes ferir na face direita, volta-lhe também a outra”. Doutra feita, todavia, sendo ele próprio ferido na face, indagou ao seu algoz, dizendo-lhe: “Se falei mal, dá testemunho do mal; mas, se falei bem, por que me feres?” Não seria esta, porventura, a prudência das serpentes, com o fim de fazer com que o seu opositor refletisse sobre sua atitude?

Semelhantemente, vemos em Paulo um cristão que sabia ser humilhado, sem, todavia, resignar-se diante de um mal sofrido, quando queriam prendê-lo sem motivo. E por ser ele um cidadão romano, apelou para César.

Quão tênue, todavia, é a linha que separa tais comportamentos. Não raras vezes, movidos por nossa justiça própria, somos levados a reivindicar direitos tão somente porque não somos capazes de pagar o mal com o bem. Outras vezes, movidos por mera humildade carnal, ficamos emudecidos diante de situações em que poderíamos declarar a verdade e levar alguns à reflexão e, quem sabe, livrar uma alma da morte.

Eis o motivo porque devemos ser guiados pelo Espírito de Deus. Nosso coração, assaz enganoso, estará sempre a justificar-nos de nossos erros. Mas o Espírito de Deus, que habita em nós, não somente nos ensina todas as coisas, como também é ele próprio o árbitro em nossos corações.

Vida e paz são o sinal da aprovação do Espírito Santo em nós. Quando isso nos falta, diante de nossas atitudes, resta-nos um sentimento de morte a morder nossas consciências. Teremos entristecido o Espírito que em nós habita, com o qual fomos selados para o dia da redenção?

Neste caso, resta-nos ainda o arrependimento. Nem tudo está perdido se ainda estamos a caminho. O quebrantamento, por mais doloroso que seja, nos reaproxima daqueles a quem ofendemos; o perdão obtido nos reconcilia com nós mesmos; a abnegação nos faz alcançar um bem maior; o negar a nós mesmos nos faz ganhar as nossas almas; a cruz nos introduz, como que por uma porta hiante, na vida eterna.

Alexandre Rodrigues

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