Quando nos faltarem as palavras...

Quando nos faltarem as palavras...

Sua vida nunca mais foi a mesma, desde que experimentou pela primeira vez o amor.

Órfã de pai e mãe, passou toda a sua infância sendo violentada pelo seu próprio tio, Simão. Juntamente com seus dois irmãos, Marta e Lázaro, Maria nada podia fazer diante da inexorabilidade da vida, que desde a aurora lhe legou um coração estéreo, árido, ressequido. Afinal, o que fazer se o seu único arrimo era quem lhe violava, inescrupulosamente, quando lhe devia proteger? Ademais, ninguém acreditaria em suas palavras, pois o tal Simão era homem de aparência, fariseu, religioso...

Não demorou para que o destino a jogasse nas ruas. E já não bastasse um, agora eram muitos que dela se aproveitavam, comprando o seu corpo a preço de pão.

Possuída por sete demônios, perambulava pelas noites, prostituindo-se, sem nenhuma esperança de ser feliz. Até que um dia, o destino tornou-se contra si mesmo. Pega em flagrante ato de adultério, levaram-na à presença do Amor. Exigiram que este a condenasse à morte, pois a Lei assim vindicava. Mas o Amor, porque simplesmente ama, amou-a até o fim. Amou-a assim mesmo como ela era: suja, caída, possuída e condenada.

“— Filha, onde estão os teus acusadores? Ninguém ficou aqui para te condenar?”

Naquele momento, Maria sentiu pela primeira vez o amor. As palavras de Cristo, que lhe fitava os olhos sem nenhuma malícia, nem acusação, nem pedido de ressarcimento, penetraram o seu coração, dizendo: “Eu também não te condeno, vai e não peques mais.    

Maria não podia compreender. Quem era este que a amava com um amor tão puro? Quem era este que incondicionalmente a perdoava, sem se importar com o que diziam os homens e a Lei? Quem era este que conseguia ver além de sua aparência, de sua história e da circunstância em que se encontrava? Quem era este que conseguia ver nela um ser humano digno, a despeito de toda a sua indignidade, pelo simples fato de ser ela criada à imagem e semelhança de Deus?

Este é o Amor, que se fez carne e andou entre os homens: Jesus. Ele recebe o filho que dissipa os seus bens e não lhe lança na face a sua culpa. Antes, corre ao seu encontro, abraça-o, beija-o, e se alegra com o retorno daquele que estava perdido.

Quão diferentes são os homens que não conhecem a Deus. Estes, não somente tomam pedras para apedrejar o pecador, como reivindicam a autoridade da Lei para justificar os seus atos de maldade. E se o Pai perdoa o penitente, ficam entristecidos e não aceitam o perdão de Deus para o outro. Fazem isso baseados no senso de pseudojustiça que possuem.  

Somente o perdoado que se percebe como tal é que conhece de fato a Deus.

Maria conheceu a Deus porque se reconheceu como pecadora perdoada. E, porque conheceu a Deus, foi liberta dos demônios e do poder do pecado.

Num dia em que Cristo estava na casa de Simão – aquele do começo de nossa história –, entrou Mari Amada Lena na casa onde estavam, pôs-se a banhar os pés do seu Salvador com lágrimas, beijando-os e banhando-os com um precioso perfume: lágrimas de agradecimentos; beijos de amor; perfume de gratidão.

Nenhuma palavra disse: apenas amou.

Quando, pois, nos faltarem as palavras...  

 

Alexandre Rodrigues

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