Há algo errado no louvor "Eu acredito"?

Bispo Alexandre, Que a graça e a paz de nosso Senhor esteja sempre contigo e toda sua família. Desculpe minha ignorância, mas tem algo no louvor "Eu acredito" (Voz da Verdade), que me incomoda profundamente quando é cantado. É a parte que diz: "nos mares da vida, me acompanhará". Desde pequena quando alguém me dizia: "Deus te acompanhe", eu logo respondia: "Que Ele me guie". Penso eu que, nessa música deveria dizer: "Nos mares da vida, me guiará". Será que estou sendo muito radical?

Esclareça-me por favor! S. N.


 

Resposta:

 

Amada irmã em Cristo, S. N., Graça e Paz.

 

Antes de efetivamente responder à sua pergunta, gostaria de aproveitar a sua indagação e interesse para fazer breve comentário pertinente. Alguns irmãos, facciosos, e cujo espírito é contencioso, não raras vezes costumam criar problemas em torno de hinos. Não, entretanto, com o interesse pela verdade, como é o seu caso. Pois, como bem notei, a sua preocupação consiste no conteúdo que a referida canção traz, isto é, no sentido que tal música traduz. Isso certamente é legítimo. E não somente legítimo, mas consiste no dever cristão que cada servo de Cristo precisa levar consigo: a responsabilidade para com a adoração, para que nenhum mal possa corromper a pureza da comunhão, a qual deve ser segundo a Palavra de Deus.

 

Os inimigos da igreja, todavia, contumazes e revéis, lutam contra carne e sangue, contra homens e instituições. Não atentam para a mensagem contida nas canções espirituais. Antes, movidos por preconceito, deixam de adorar a Deus com canções maravilhosas, as quais o cabeça da igreja concedeu ao Seu corpo (ainda que por intermédio de servos que não trazem, com clareza, a revelação neotestamentária de Deus).

 

Todo aquele que deseja servir a Deus, na igreja, precisará fazer a devida distinção entre organizações religiosas com suas práticas diversas (equivocadas ou não) e os servos legítimos de Deus, com seus dons espirituais e talentos, os quais abençoam o corpo de Cristo com o suprimento que vem do Espírito Santo. Diante disso, devemos rejeitar tudo o que é profano, pecaminoso, herético, mundano, que for produzido pelos muitos servos (enganados) de Deus. Por outro lado, tudo aquilo que for santo, bíblico, puro, celestial, que condiz com a verdade das Escrituras e que tiver sido produzido pelos servos de Deus nas muitas vertentes cristãs – no corpo de Cristo – devemos receber como bênção do Senhor à Sua igreja.

 

O critério, portanto, não deve ser quem compôs a canção, mas qual o conteúdo expresso nela. A pergunta não deve ser de qual ministério o fulano ou beltrano participa; mas se aquilo que o tal servo produziu está ou não de acordo com a economia de Deus, segundo o Novo Testamento. Do contrário, cairíamos no mesmo erro das muitas seitas chamadas evangélicas, que desprezam o corpo de Cristo – os demais irmãos – na justificativa de serem eles os defensores da verdade. Longe de nós tal atitude. O corpo de Cristo é maior que a “melhor” das denominações – se é que assim se pode dizer.

 

Assim digo, não por sua causa, como já bem declarei. Mas por causa de outros que estão na dúvida. Não por causa dos facciosos que não amam a igreja. Mas por causa daqueles que carecem de entendimento espiritual. Para esses, basta uma palavra de esclarecimento para tranquilizar seus corações. Para aqueles, nem toda a Escritura basta para convencê-los do contrário, haja vista estarem eles em fel de amargura, obscurecidos no entendimento, privados da verdade, em razão da obstinação de seus corações.

 

Atentemos, então, à questão proposta: estaria correta a expressão “nos mares da vida me acompanhará”? Não deveria ser “nos mares da vida me guiará”? Porventura não há aí uma diferença abissal entre os termos “acompanhar” e “guiar”? Vejamos.

 

Muito bem. Antes de tudo, precisamos nos ater às acepções que os termos possuem. Segundo o dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, o termo “acompanhar” significa <<ir em companhia de... cercar-se...>>. Vê-se aqui, pois, entre outros significados, dois que nos interessam no contexto da canção: ser acompanhado ou cercado por alguém. O dicionário online, PRIBERAM (http://www.priberam.pt/dlpo/Default.aspx), coloca essa segunda apreensão de modo mais claro: “acompanhar: escoltar em trânsito”. Não é sem razão que o dicionário de sinônimos (http://www.sinonimos.com.br) coloca as palavras “seguir” e “escoltar” como sinônimas de acompanhar.

 

Assim, na expressão “NOS MARES DA VIDA ME ACOMPANHARÁ”, o último termo pode significar uma coisa ou outra, isto é, pode ser interpretado como seguir – no sentido de companhia – ou como escoltar – no sentido de guiar/ conduzir.

 

Agora que temos os significados da palavra em questão, devemos conduzir suas duas apreensões – seguir e guiar – para dentro do contexto da Bíblia Sagrada, a fim de certificarmos se ambas são aplicáveis ou não em nossa experiência com Deus, em nossa jornada.

 

O Salmo 23 é um bom exemplo para verificarmos isso. No versículo 3, lemos: “... Guia-me pela vereda da justiça por amor do seu nome”. Temos aqui o sentido que você mesma colocou como sendo o mais adequado. No versículo 4, entretanto, encontramos a segunda acepção do termo: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, por tu estás comigo”. Veja você como que o Senhor tanto nos guia como está conosco, em nossa companhia.

 

A diferença na aplicação desses dois termos nos versículos é bastante clara. O Senhor nos guia, conduz, dirige-nos, no caminho da justiça. Neste caminho, precisamos ser guiados, do contrário jamais poderíamos andar nele. Por outro lado, ao falar o salmista das dificuldades que encontramos em nossa jornada (nos mares da vida), como bem declarou – o vale da sombra da morte –, precisamos de companhia, de alguém que esteja ao nosso lado, para nos servir de auxílio, arrimo. Por isso diz: não temerei mal nenhum, POR QUE TU ESTÁS COMIGO.

 

Esta é uma das grandes e mais belas verdades das Escrituras: a imanência de Deus. Trata-se da verdade de como o Eterno, sendo Ele Senhor dos céus e da terra, criador e mantenedor de todas as coisas, coloca-Se ao nosso lado, em nossa companhia, para caminhar conosco, suprindo-nos com força e graça, a fim de passarmos, sem perder a fé e o vigor, no encapelado mar dessa vida.

 

Por isso também declarou o SENHOR por boca do profeta Isaías: “Quando passares pelas águas, eu serei contigo” – 43:2. Dessa promessa provaram literalmente Hananias, Mizael e Azarias, quando jogados na fornalha de fogo ardente, desfrutaram em meio ao fogo da companhia do Filho de Deus – Dn 3. Essa mesma promessa se estende a todos os verdadeiros discípulos de Cristo, o qual lhes prometeu, dizendo: “E eis que eu estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos” – Mt 28:20. E, para tanto, enviou-lhes o Espírito Santo, o Consolador, que em grego se lê <<parakletos>>, que significa: aquele que está ao lado, ajudador. Portanto, o Senhor não somente nos guia (conduz) pela vereda da justiça e a toda a verdade (Jo 16:13), como também está em nossa companhia, como aquele que nos encoraja, anima-nos e nos sustenta.

 

Entretanto, algo mais me parece dizer a expressão “nos mares da vida me acompanhará”. Somente por meio do contexto da música é que poderemos percebê-lo. Veja que o que a letra declara:

Sem Jesus não dá,

Não dá pra viver,

Mesmo que eu quisesse me esconder.

Pois aonde eu for,

Sempre Ele irá,

Nos mares da vida me acompanhará.

Ora, por qual motivo não pode o autor se esconder de Deus? A resposta surge no verso seguinte: “Pois aonde eu for sempre Ele irá”. O autor dessa canção declarou exatamente o mesmo que o Davi no Salmo 139:7-10: “Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face? Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também; se tomo as asas da alvorada e me detenho nos confins dos mares, ainda lá me haverá de guiar a tua mão, e a tua destra me susterá”. A diferença está na perspectiva de ambos os escritores. Davi fala do Deus transcendente, que enche todas as coisas, e, portanto, não se pode fugir d’Ele, pois para onde ele for, lá Deus estará. O autor de EU ACREDITO fala do Deus imanente que, ao seu lado, acompanha-o em todos os seus passos, o que torna inútil qualquer tentativa de fuga de Sua presença.

 

De todo modo, seja o primeiro, o segundo ou o terceiro sentido que se queira dar ao termo acompanhar, ficamos maravilhados diante de Deus e o louvamos pelo Seu guiar, pela Sua companhia e pela Sua fidelidade para conosco, assim como por todos os Seus atributos.

 

Eu mesmo,

 

Bispo Alexandre Rodrigues

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