Sobre Mateus 23:23

Pastor eu nasci e cresci num lar evangélico sou da denominação Batista renovada! Eu sempre aprendi que tinha que dar o dízimo e a oferta se não estaria roubando a Deus e iria para o inferno! A igreja baseia-se em Malaquias 3 e Mateus 23:23! Eu gostaria de uma orientação em relação a Mateus 23:23. Obrigado!


 

Resposta:

 

Caro irmão em Cristo, Graça e Paz...

 

Mais uma vez, deparamo-nos com questões relacionadas à Lei, com dúvidas a respeito do dever cristão de viver ou não pelos princípios legalistas do antigo testamento. No caso específico – o dízimo – a dúvida maior reside na questão se o dízimo é ou não ratificado pelo novo testamento.

Ora, sabemos pela Escritura que o dízimo (nos moldes da lei) não faz parte nem dos ensinamentos de Cristo e de Seus apóstolos nem tampouco da prática da igreja primitiva – ainda que muitos nos dias de hoje asseverem o contrário. Certamente, esses que assim fazem apresentam textos descontextualizados, irresponsavelmente, com o fim de fundamentar seus dogmas. Confesso não entender tal atitude. Não posso afirmar se o fazem por não estarem habilitados na arte de interpretação bíblica (exegese) ou se cinicamente procuram enganar os incautos no entendimento da Palavra de Deus. Entretanto, de um modo ou de outro, o certo é que não poderiam estar na frente do povo do Senhor aqueles que não ensinam a Sua verdade.

Um dos textos mais usados com o fim de fundamentar a doutrina do dízimo nos dias do novo testamento é Mateus 23:23, conforme se transcreve: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas”.  Consideremos, pois, alguns pontos importantes sobre este texto:

 

1. QUANDO JESUS DECLAROU TAIS PALAVRAS, AINDA NÃO HAVIA A NOVA ALIANÇA, O NOVO TESTAMENTO. A nova aliança, conforme anunciada figuradamente na ceia do Senhor (Mt 26:27-28), só passou a vigorar quando Jesus ofereceu-Se a Si mesmo como sacrifício pelos nossos pecados, outorgando a nova aliança com o Seu próprio sangue (Hb 9:15-17). O período em que Jesus peregrinou sobre a terra, antes de Sua morte, foi um período de transição entre a antiga aliança do Sinai e a nova aliança do Calvário. Nesse ínterim, as sombras e figuras da lei encontravam-se com a substância, isto é, com a realidade que é Cristo (Cl 2:16-17 Cp. Hb 10:1). O primeiro sistema deveria ser removido para ser estabelecido o segundo (Hb 10:9). Enquanto isso não fosse plenamente cumprido – o que aconteceu quando Cristo bradou ao Pai: “está consumado” –, nem um i ou til poderia ser tirado da lei, ATÉ QUE TUDO SE CUMPRISSE (Mt 5:18). Esta foi também a razão porque Jesus ordenou ao leproso que fora por Ele curado, dizendo que se apresentasse ao sacerdote e oferecesse a oferta, segundo o mandamento de Moisés (Mt 8:4). Ora, não era Jesus o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo? E, afinal, não era Cristo a realidade e substância das ofertas oferecidas a Deus, ordenadas em todo o antigo testamento? Então, porque o Senhor, no evangelho de Mateus, ordena ao leproso que procurasse o sacerdote e procedesse às ordenanças levíticas? Ora, assim aconteceu porque o tempo de Sua peregrinação não era ainda o tempo da nova aliança, senão que tão somente se fazia a transição, mediante a proclamação do evangelho, a cumprir-se cabalmente na cruz do Calvário. OS QUE DIZEM QUE CRISTO ENSINOU O DÍZIMO NA PASSAGEM DE MT 23:23, DEVERIAM TAMBÉM ASSEVERAR QUE OS SACRIFÍCIOS DEVEM CONTINUAR NOS DIAS DE HOJE, LEVANDO EM CONTA QUE O MESMO JESUS QUE DECLAROU AOS FARISEUS A RESPEITO DO DÍZIMO TAMBÉM ORDENOU AO LEPROSO CURADO O OFERECIMENTO DAS OFERTAS CERIMONIAIS. Isso, entretanto, eles não fazem. Demandaria para os pseudos-sacerdotes (pastores) muito trabalho. Se bem que...

 

2. O TEXTO DE MATEUS 23:23 DECLARA, A BEM DA VERDADE, QUE O DÍZIMO É UM PRECEITO DA LEI. Quando o Senhor declarou que os fariseus davam o dízimo do cominho, da hortelã e do endro, fê-lo em comparação às coisas mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fé. Pressupõe-se disso, portanto, que o dízimo também é parte da Lei, ainda que seja considerado como coisas menos importantes. O livro de Hebreus confirma esta verdade, ao afirmar que “os que dentre os filhos de Levi recebem o sacerdócio têm MANDAMENTO de recolher, DE ACORDO COM A LEI, os dízimos do povo” (7:5). Portanto, os que tomam Mateus 23:23 para fundamentar seus ensinamentos deveriam atentar para esse fato, de que o dízimo é preceito da Lei de Moisés, e como tal não faz parte do dever espiritual dos filhos da nova aliança (1Co 9:20).

 

3. A LEI POSSUI COISAS MAIORES E MENORES, MAIS IMPORTANTES E MENOS IMPORTANTES. O versículo seguinte (Mt 23:24) confirma essa assertiva: “Guias cegos, que coais o mosquito e engolis o camelo!”.  Veja só. O camelo, nessa metáfora, são as coisas mais importantes da Lei; são as coisas maiores, comparadas às menores: os mosquitos. Assim, o dízimo é aqui tratado pelo Senhor como parte das coisas menores da Lei, como mosquitos perante camelos. Ora, o camelo – as coisas maiores – é a substância da lei, isto é, aquilo que de fato a Lei significa e representa. Uma vez que a Lei é sombra de bens vindouros (Hb 10:1), a sua realidade e concretude são mais importantes que o mero reflexo. A justiça, a misericórdia e a fé são, por assim dizer, a realidade anunciada pelo preceito do dízimo. A mera atitude de devolver os dízimos, desprovida do espírito misericordioso, do senso de justiça e de atitude de fé, tornava a obra dos fariseus reprováveis diante do Senhor da Lei. Na verdade, o que os movia não era um coração permeado de misericórdia pelo faminto, pelo órfão, pelo estrangeiro; nem tampouco buscavam promover a justiça entre seu povo, para que não houvesse entre eles necessitados; também não eram impulsionados pela fé na Palavra de Deus. As obras da Lei deveriam ser acompanhadas do espírito que as vivifica, do contrário seriam, na linguagem de Tiago, obras mortas.

 

4. DEVÍEIS, PORÉM, FAZER ESTAS COISAS, SEM OMITIR AQUELAS. Isto é, deveria a casta dos religiosos judeus proceder interior e exteriormente, para que a Lei fosse de fato cumprida. Não há aqui, portanto, mandamento algum, senão uma severa repreensão pelo fato de serem eles como sepulcros caiados, que por fora parecem belos, mas por dentro só há morte. O próprio tempo verbal – devíeis (pret. Imperf. do Indicativo) – elimina a possibilidade de termos aqui um mandamento, o que exigiria o uso do verbo no modo imperativo.

 

5. NAQUELE MOMENTO, DEVERIAM OS FARISEUS CAIR PROSTRADOS AOS PÉS DO SALVADOR E CLAMAR, DIZENDO: “MISERÁVEL HOMEM QUE SOU” (Rm 7:24). Entretanto, não podiam ver a si mesmos. Não percebiam que não eram capazes de tratar com o problema do pecado em seus corações. A justiça, a fé e a misericórdia exigidas pelo Senhor não era algo que pudessem eles praticar sem o Espírito de Cristo. Todavia, desprezaram o único que pode, de fato, transformar a alma e fazê-la habilitada para o cumprimento da vontade de Deus.

Não diferentemente daqueles dias, muitos continuam nos dias de hoje a desprezar a verdadeira piedade, em troca de uma vida de mandamentos e aparências. Continuam a coar mosquitos, enquanto as coisas mais importantes passam despercebidas. Vivemos hoje no tempo da realidade (Jo 1:17). Não mais vivemos nos dias da Lei; pelo contrário, dela fomos libertos para servirmos a Deus em novidade de espírito (Rm 7:6). Deus não pode ser servido por mãos humanas; nem tampouco habita o Eterno em casas feitas por homens (At 17:24-25). A casa espiritual de Deus requer que homens espirituais sirvam a Deus-espírito, no espírito, e pelo Espírito. Razão por que o ensinamento apostólico a respeito das ofertas, sobretudo em 2Co 8 – 9, é tão elevado e inspirado por sentimentos nobilíssimos.  A alegria, a generosidade, a voluntariedade e o amor são certamente fruto do Espírito no homem regenerado. Somente a semente divina pode gerar no coração do homem tais disposições, em meio a esse mundo perverso e cruel. É, pois, na porção da Escritura referenciada acima que os crentes do novo testamento são ensinados a respeito do caminho da verdade, no que se refere a este particular: as ofertas de riquezas materiais na casa de Deus.

 

No amor de Cristo,

 

Bispo Alexandre Rodrigues

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