Em busca de Deus

Sai a alma vazia em busca de Deus. Seu sôfrego desejo por saciedade a põe desesperadamente à procura do Desconhecido. Mergulhada na escuridão da noite e do seu coração sombrio, tateia – como cego – buscando encontrar um grande templo ou uma pequena capela. Por onde passa, a tudo ignora, pois a sua atenção, concentrada, não pode distrair-se. Anela a ignota alma encontrar nas auras de espiritualidade uma áurea que lhe resplandeça a face ou uma vultosa manifestação do poder sobrenatural que lhe sopre o rosto. Suas mãos, carregadas de ofertas, desejam ajudar o Abundante.

Enquanto caminha pelas ruas e becos, transita, sem perceber, por entre os cristos desamparados – apátridas em suas próprias pátrias, sem aparência nem formosura e desprezados pelos homens. Esses, como vermes, jazendo na penumbra da noite fria, “crucificados” pela maldade humana, pagam o preço dos pecados de uma sociedade que não conhece a Deus.

Desvencilhando-se de todos esses “embaraços”, continua a alma em busca do Eterno. E, como quem suspira pelo Altíssimo, está a alma sedenta disposta a ir ao infinito em busca da face do Onipresente. Anela encontrá-lo sob um domo dourado, assentado num trono, cetro na mão, envolto a trovões e relâmpagos. Todavia, tendo ciência – posto que equivocada – de que tal manifestação só será possível no último dia, sentir-se-ia satisfeita em ao menos encontrá-lo nos templos em meio a orações fortes, a vigílias, a jejuns, a grandes somas de dinheiro, a línguas estranhas, a ensinamentos ortodoxos da Teologia.

Finalmente, encontra a desesperada alma um templo, lugar iluminado, com muitas luzes ao redor. Doze cátedras, ocupadas por doze graves especialistas em religião, formavam um círculo em torno de uma bíblia. Ocorria um simpósio. Discutia-se os aspectos formais e escatológicos de Mateus 25:31-46. Numa lousa, figuravam os tópicos a serem discutidos: 1) tempo em que ocorrerá o tal julgamento: antes, durante ou depois da grande tribulação; 2) identidade dos bodes e das ovelhas; 3) salvação: por fé ou por obras. A alma em busca de Deus a tudo ouvia atentamente.

Insatisfeita por não encontrar o Divino naquele lugar, pois considerou o discurso muito objetivo, sai novamente a alma em busca de Deus. Enfim, encontra outro lugar: pregador exaltado, pessoas em êxtase, vozes ininteligíveis, ruídos e gruídos, cadeiras espalhadas, endemoniados, amuletos, mascotes, envelopes, orações fortes. Nada ali encontrou. Deus não “estava” naquele lugar.

Retirou-se novamente a alma em busca de Deus, triste e decepcionada.

“—Por que Deus não se manifesta aos homens?” Perguntava ela a si mesma, ceticamente, enquanto voltava para casa.

O Sol, que despontara generosamente, lhe aquecia a face. Uma brisa soprava-lhe suavemente os cabelos. Os pássaros saudavam o dia alegremente. Uma criança, na posição fetal, dormia debaixo de uma marquise. Uma pobre senhora, descalça, empurrava um carrinho de reciclável. Um gemido que murmurava ouvia-se de debaixo do viaduto. Uma mão se estendia suplicando um pão.

E a cega alma em busca de Deus...    

 

Alexandre Rodrigues

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