Eu acredito em simpatia!

Certo dia, um colega de trabalho que viu de relance minhas anotações sobre religiões comparadas – alguns rabiscos feitos num artigo que tratava das visões esotéricas ao longo da História – perguntou-me se eu agora acreditava em cabala, horóscopo, mandingas, no poder mágico das pedras e dos cristais, em amuletos ou em simpatia.

Embora eu tenha percebido que a pergunta feita a mim fora apenas para “puxar” assunto, considerei-a, no mínimo, uma pergunta instigante. Mais que depressa respondi, alto e bom som, que sim. Um sim seguido de breve silêncio...

O colega, que me inquiriu com a sua mística tabela de crendices populares, ficou demasiadamente espantado com a minha resposta, uma vez que o atento observador dos meus estudos sobre religiões sabia, ainda que rasamente, que eu não compartilhava de ideias esotéricas.

É claro que logo desfiz o mal-entendido, o qual foi por mim, estratégica e propositadamente, lançado ao meu inquiridor na forma de resposta. Meu intuito, entretanto, era o de “fisgar”, com a melhor isca, o místico interpelador, para então conduzi-lo a uma nova vereda.

Retomei a resposta, completando agora o meu sim, com uma sucinta explicação:

“— Sim, pelo menos no que diz respeito ao último item da lista” – corrigi depressa.

“— Eu acredito, sim, em simpatia! A simpatia é um nobre predicado da raça humana, uma qualidade cada vez mais escassa em tempos modernos” – disparei em tom sarcástico e provocativo. Contudo, o fiz com um tom que despertasse certa curiosidade no meu interlocutor.

Sem compreender muito a abrupta mudança de tema, ou o uso que fiz da polifonia, que faz variar em múltiplos significados uma mesma palavra, meu colega, evidentemente curioso pelo rumo da prosa, deixou-se conduzir por nova rota – sem mística alguma –, por um novo caminho, que carece de ser percorrido pela razão. Razão, digo, o uso do entendimento, sem, todavia, prescindir da ternura, da gentileza, da compaixão ou da emoção.

Passei então a dessedentar a sede do amigo interessado em conhecimentos misteriosos, falando-lhe ao coração. Pois é pela trilha do coração que de fato falamos à alma dos homens.

Disse, pois, ao meu amigo interessado pela ressignificação do termo simpatia:

“— A terna e inteligente emoção da simpatia possui a capacidade de sentir o mesmo que outrem e de compartilhar, na comunhão de sentimentos, a alegria com os que se alegram e o choro com os que choram.”

Essas palavras caíram-lhe aos ouvidos como uma semente, que, embora pequena, foi suficiente para desbravar seu peito e atingir-lhe o mais profundo de sua alma, fazendo, de imediato, brotar e reviver em sua consciência o germe da compaixão.

Não muito tempo depois, tendo nós saído para o almoço, pude ver a semente da compaixão brotar e gerar o seu doce fruto no coração de meu amigo: vi-o, ao longe, tomar um cobertor do porta-malas de seu carro e dá-lo a um mendigo que jazia de frio, assentado no meio fio de uma calçada.

Estando nós dois a olhar o mendigo, que saía com grato sorriso, agora agasalhado e com um ar mais humano em seu rosto (por ter sido visto como homem que é), perguntei-lhe:

“— Você sempre guarda um cobertor no seu carro?”

Ele logo me respondeu que não, mas que havia comprado o cobertor na semana anterior e o esquecera no porta-malas do carro. Explicou-me que o cobertor seria usado para aquecê-lo quando, nas noites mais frias, fosse assistir TV na sala de sua casa. Acrescentou que agora podia perceber o mundo com outros olhos e, por isso, achou bem melhor aquecer quem está sem sofá e com frio na rua, assistindo a TV do mundo real.

Sorrindo, pensei e falei comigo mesmo: Isso, sim, é boa simpatia!

 

Josué Argôlo.

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