Mortificação

Aflição, angústia, calvário, desgosto, dissabor, mortificação, suplício, tormento... Esses são alguns dos sinônimos que podem ser utilizados para definir a palavra sofrimento. Nesse emaranhado de significados semelhantes ou muito próximos ao termo sofrimento, há um que, em especial, atrai muito a minha atenção; trata-se da expressão mortificação, palavra cuja origem latina traz o sentido de causar a morte ou, simplesmente, fazer morrer.

Por uma questão de economia (de tempo e de palavras), não me deterei nas várias acepções que o termo mortificar pode assumir nas ciências humanas, isto é, em suas mais variadas perspectivas antropológicas. Quero somente alçar o termo aludido ao seu caráter básico, primário e original, que nada mais é do que “alguém” ser – de modo voluntário ou involuntário – tocado pela morte. Muito possivelmente neste exato momento, caro leitor, você esteja a se perguntar: Tocado de modo voluntário pela morte?

“...Ora, eu sempre pensei que todos os filhos de Adão são alvos passivos e involuntários da morte”, completa o leitor que vê com efêmero olhar nossa estadia nesse invólucro a que nos acostumamos chamar de corpo. Mas é bem verdade que a raça humana, sem nenhuma exceção, desde o momento da queda do primeiro homem, tem perdido a inglória luta contra a morte: o mais implacável e feroz dos sofrimentos.

Em toda casa, em cada família e no mundo inteiro, quando nasce uma criança, inicia-se o inevitável processo de morte naquele que acabara de vir ao mundo, mesmo que este processo se complete ao cabo de 80, 90, 100 anos ou mais. Todo homem, desde o seu nascimento, está marcado e fadado a experimentar em alguma altura de sua existência o amargo e funéreo gosto da morte.

Deixando de lado aquilo que é óbvio – mors omni aetate communis est –, a morte não poupa ninguém, retomo aqui o ponto mais importante do meu discurso, relativo ao ser tocado de modo voluntário pela morte. Nesse aspecto, há somente um, em toda a História, que pôde – em palavras, corpo, alma, espírito e divindade – entregar-se por inteiro de modo voluntário à morte, a fim de vencê-la de forma cabal e definitiva, livrando aqueles que pelo medo da morte estavam sujeitos à escravidão por toda a vida.

Jesus, o homem divino por excelência (Deus encarnado e revelado ao mundo), demonstrou manifestadamente, não apenas na Cruz, mas em sua vida inteira, que o seu caminho era de completa abnegação e um calvário constante. Sua Via Crucis não era semelhante ao fado que fatalmente recai sobre todos os homens, que nascem, vivem, sofrem e morrem, sem nunca ter o poder de quebrar o ciclo vicioso de suas existências. Não! Jesus diariamente tomava sobre Si a cruz, mesmo antes de nela ser erguido no Monte Caveira diante dos ignorantes olhos de um mundo caído, que não via pendurado no madeiro o próprio Deus.

O Filho de Deus provou, por escolha própria, a mortificação do seu Eu para que, em suas agruras cotidianas – o ser tentado em todas as coisas como homem –, aprendesse a obediência por aquilo que sofreu, a fim de tornar-se o Autor da Salvação eterna. A mortificação, portanto, vivida por Jesus, não é uma condição última de quem está aprisionado pela morte. Pelo contrário, Jesus, assume o viver em mortificação justamente para ao passar pela morte destruir aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo.

A mortificação tomada voluntariamente pelo Cristo não é uma escolha de perdedor, mas é sim, sem dúvida alguma, a resoluta declaração do Campeão dos campeões, para o Homem e para o Universo, de que nada pode nos separar de Deus. O estar sujeito à morte é para todos os filhos de Adão, ao passo que a mortificação de si mesmo é somente para quem decidiu fazê-lo, no corpo, na alma e no espírito, tal como fez Jesus, o Filho de Deus, que nos abriu o caminho, possibilitando-nos que também o trilhássemos.

    

Josué Argôlo.

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