Pães ou batatas

O mundo tem suas leis. Leis injustas, egoístas, avaras.

Debaixo do Sol tudo é aferido e determinado pela força do braço, do poder, das posses, da esperteza, do apadrinhamento.

Imagine um homem que há trinta e oito anos mantinha-se deitado sobre uma esteira, esperando que as águas do tanque de Betesda se agitassem, na esperança de ser curado de sua paralisia. Quando as águas se moviam, sempre havia alguém que se lançava primeiro do que ele no tanque. Não havia ninguém que o ajudasse. Ninguém, nem ao menos para empurrá-lo, ainda que fosse com os pés.

Lembro-me também de outro relato, o de uma mulher, viúva, que levava o esquife de seu filho, filho único, a fim de ser enterrado. Um pequeno grupo de pessoas, solidárias com a sua dor, seguia com ela para fora da cidade, a fim de sepultar a sua esperança. Depois, cada uma seguiria para a sua casa, e ela, para as suas misérias.

Ninguém há que veja o outro, que se preocupe com o seu semelhante. Afinal, a palavra de ordem do mundo já está dada: vença o melhor. Na corrida do sucesso pessoal não há tempo para contemplar o Sol, aspirar o perfume de uma flor, estender a mão ao necessitado, socorrer o aflito, nem mesmo para agradecer a Divina providência pelas benesses recebidas.

Andamos sozinhos, aos esbarrões, em meio a milhares de pessoas também solitárias, pisando os caídos, ignorando os marginalizados.

É preciso ser o primeiro: grita a mundana voz em nossas consciências cauterizadas: corram, não esperem, alcancem o prêmio; se for necessário, empurrem, mordam, atropelem...

Somos como que marionetes nas mãos de um mundo mau, inexorável, iludidos com as indumentárias que a vida nos emprestou: sacerdotes, políticos, policiais, professores, juízes, advogados, doutores... todos, como disse certo poeta, acreditando estar “contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social”. No fim, somos todos derrotados, pois olvidamos que a vida não consiste na quantidade de bens que possuímos, nem se limita a essa efêmera existência.

Embora escrita em livros, a figura do maior homem que a história já conheceu se perdeu de nossas memórias. A imagem de Jesus de Nazaré – homem solidário, amigo de publicanos e prostitutas –, o qual andou por toda a terra fazendo o bem, foi suplantada pela máscara da religião e pela falsa piedade, manifestada pelos muitos jejuns, pelas incansáveis orações, pelas intermináveis adorações destituídas de verdade, pelos sacrifícios de tolos, pelas ofertas negociadas, pelo perdão interesseiro, pelas línguas estranhas desprovidas de entendimento, pelo conhecimento despido do amor, pela pregação mercantilizada, pela música prostituída, por uma teologia fria, seletiva e de condenação.

E com tudo isso nos julgamos vencedores. Mas que galardão caberá aos que não venceram a si mesmos, nem ao seu egoísmo, nem ao seu perverso coração? Surpreender-se-á quando, ao cruzar os portões da morte e se deparar com o reto juiz, ouvir de sua boca: “ao vencedor, as batatas”. Nenhuma coroa de glória, nem coroa da vida, nem coroa imarcescível; mas um profundo porão de um navio naufragado no abismo, no qual se embarcou o iludido, depois de ter aceitado o convite de conquistar todos os reinos da terra. Restar-lhe-á passar parte da eternidade descascando batatas no porão, até que sua consciência se desperte, e regresse ele para a casa do Pai, onde há pão com fartura.     

 

Alexandre Rodrigues

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