Entre Deus e o diabo

“— Essa é minha... essa é tua... essa é minha... essa é tua... Juro por tudo que há de mais sagrado, mãinha, que nois escutô desse jeitim que eu tô dizeno. Num foi Tonico?” 

“— Foi, sim, Maneco. Eu quase me borrei todim nas calça quando ouvi do lado de fora do muro do ‘sumitério’ a divisão das alma entre Deus e o diabo!”

Com os olhos estatelados de pavor, dona Cândida (ou Candinha como era mais conhecida na Rua Treze)  mal acabara de escutar os filhos que vinham do arrasta-pé na casa do Zé Bala, logo se pôs de joelhos a suplicar, para que Deus não fizesse tamanha judiação: dividir as poucas almas do cemitério da cidade de Consolação com o diabo.

A cena dantesca, descrita na casa de dona Candinha, se repete pelo mundo afora, em tons menos folclóricos e pitorescos; contudo, a mensagem ainda é a mesma, não importando o lugar.  O discurso que é reproduzido – na voz de leigos e também de catedráticos – nos induz ao erro de crermos que vivemos em um mundo estratificado, segmentado e já repartido (almas) de antemão, entre Deus e o diabo.

Tristes e abatidos, completamente sufocados, nós vivemos nesse mundo maniqueísta e dualista. Pobres homens que somos, existindo/sobrevivendo à sombra negra e trevosa de um mundo “cão”. Homens-robôs, homens-fantoches, homens-palhaços, que, ao fim do espetáculo – quando as cortinas da vida se fecham, e se rompe o fio de prata e se quebra o cântaro junto à fonte –, enchem de risos, com a sua desgraça, os lábios de um “deus” que se assenta à mesa da vida juntamente com o capiroto para deitar sorte e dividir com o demo as almas do mundo inteiro.

O que será de nós? A vida humana realmente se resume a alguns poucos “estalos de dedos” num picadeiro, que passa rápido, que passa ligeiro? Nascemos, vivemos e morremos para entreter e fazer gracejar a plateia, que mesmo invisível aos nossos olhos está a zombar de nós? Somos apenas homens de lata? Homens presos pelos pés e pelas mãos às cordas do desejo vil, caprichoso e pueril de um “deus” que divide as almas entre si o e diabo?

Infelizmente o mundo está cheio de mal-entendidos e de histórias truncadas e fragmentadas. O mundo é cheio de homens injuriantes e caluniadores que projetam céus, infernos, diabos e deus(es) à sua própria imagem e semelhança. Nem mesmo Deus, ou principalmente Ele, escapou de ser taxado de maniqueísta e partidário. O mundo já se acostumou a ouvir e crer nas histórias de um “deus” que, ao seu bel prazer, abre e fecha as portas do paraíso, lançando no caldeirão do inferno todos os homens pelos quais não teve nenhuma simpatia.

E falando em mal-entendidos, ia quase me esquecendo...

O que os parvos Tonico e Maneco escutaram do lado de fora do muro do cemitério foi apenas a divisão de algumas mangas-coquinho, daquelas bem docinhas, já com a casca salpicada de pintinhas de tão maduras que estavam, que uma dupla de viajantes havia derrubado do único pé de manga da necrópole, e que estava ladinamente a separar em seus sacos de pano cru.

Jamais passou pela cabeça daqueles errantes viajantes, que permaneceram alguns poucos minutos dentro do cemitério, que as frutas surrupiadas na calada da noite dariam tanto pano para manga na casa de Dona Candinha.

E assim o mundo gira... entre Deus e o diabo, o mundo vai vivendo... decidindo... escolhendo as mangas (almas) que são melhores para o paraíso.

 

Josué Argôlo

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