Um odre na fumaça

“— Não é assim que se faz, Abdullah. Primeiro você precisa deixar o odre ser curtido na fumaça por tempo suficiente, antes de introduzir água em seu interior ” – falou Omar com enorme doçura ao seu neto, enquanto este enchia de água um odre recém-feito com o couro de um cabrito.

“— Eu só quero ver o que acontece com a água quando o odre não está pronto” – disse Abdullah ao avô, que observava atentamente o neto – um jovem pastor de cabras do deserto do Neguebe – em seu infantil experimento.

Sorrindo para Abdullah, Omar, o velho beduíno do deserto, explicou mais uma vez ao neto a importância de o odre estar curado, pronto, para então ser útil, conforme o seu propósito: servir de recipiente para dar de beber aos homens.

“—Tempo e resistência, Abdullah!” Essas foram as duas palavras que Omar utilizou para reforçar o ensinamento ao neto sobre o preparo de um odre na fumaça.

“É uma questão de tempo, até que o odre ganhe a resistência necessária, adquirida pelo calor da fumaça a que é submetido, antes de estar pronto para conter o nosso mais importante bem: a água, que nos mantém vivos durante nossas longas jornadas pelo deserto” – disse Omar ao jovem pastor de cabras.

Omar continuou explicando ao pequeno jovem Abdullah que os odres são semelhantes aos homens, os quais, na medida em que são experimentados pelas provações no decorrer do tempo, recebem a oportunidade de se tornarem mais fortes, mais resistentes, até alcançarem a maturidade.

“Os homens precisam entender que, em sua jornada pelo deserto da vida, é necessário trilhar o caminho do aperfeiçoamento. A fumaça e o calor nos fazem perceber que ‘somos’ um odre ainda cru, e que nossa carne precisa ser completamente tratada, a fim de que não se perca a ‘água’ que por nós é levada para dessedentar a nós mesmos e a outros homens durante a caminhada” – falou Omar em voz baixa, mas segura, olhando dentro dos olhos de Abdullah.

“— Me diga, vovô, e a água colocada no odre que não está pronto, o que acontece com ela?” Perguntou Abdullah ao avô.

“— Tanto a água quanto o odre se perderão, meu neto. Um odre sem preparo é semelhante a um homem que recebe talentos, mas os faz perecer, os faz ‘apodrecer’, por não saber que tudo neste mundo deve ser feito visando a um fim proveitoso. Nossos talentos e recursos (a nossa água) devem ser usados para servir aos homens. Somos apenas mordomos de Deus, meu pequeno Abdullah” – completou Omar, lembrando naquele momento do nascimento e do nome dado ao neto.

“— Todos os homens devem se ver assim como é o seu nome, meu neto. Quando você nasceu, seu pai deu a mim a felicidade de escolher o seu nome: Abdullah, que quer dizer servo de Deus” – disse Omar ao neto.

“O perfeito odre, o odre ‘maduro’, é o homem que aprendeu em suas fraquezas, debilidades e provações a receber e doar tudo que lhe foi dado pelas mãos de Deus, da mesma maneira que o odre recebe e doa a água depositada em seu interior. Aquele que aprendeu o sentido da vida compreendeu que o único propósito de nossa existência é servir a Deus e aos homens, matando a sede de quem tem sede.”

Deste modo terminou Omar de explicar ao neto, Abdullah, por que os odres devem passar pela fumaça, a fim de serem úteis aos homens.

 

Josué Argôlo

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