O poder do amor

“Sempre fica um pouco de perfume nas mãos de quem oferece flores.”

                                                                                            Provérbio chinês.

 

Maria Rosa, jovem flor, dos homens só conheceu espinhos. Apesar de seu nome, Maria Rosa sempre carregou no corpo e, principalmente, na alma as marcas de quem muito bebeu das acerbas águas do sofrimento.

Igualmente aos seus pais, assim como à semelhança de não poucos moradores do pequeno povoado onde vivia, a jovem Maria Rosa tirava o seu sustento trabalhando no cultivo de rosas, as mais formosas e perfumadas flores da bucólica região da Vila do Prado.

Rosa, como era chamada pelos mais íntimos, levava em seu coração, em suas escolhas e em suas ações o eterno e inconfundível perfume do amor, ao mesmo tempo que, paradoxalmente, trazia consigo em seu nome e em sua história o breve perfume das “filhas da natureza”, que, embora agraciadas por tão desconcertante beleza, sempre cumprem em si mesmas o seu destino: perecer, tal como “restos perdidos, folhas mortas que o tempo esquece...”.

Desde muito cedo, quando ainda botão de flor (desde que se entendeu por gente), a encantadora menina começou a experimentar em sua trajetória – curta fragrância de vida – os espinhos, os quais aprendeu a suportar em seu pequeno canteiro da existência humana. Rosa vivia e sofria sem, contudo, deixar de sonhar.

Em seu roseiral de sonhos, muito semelhante ao roseiral de onde tirava o seu sustento, Maria Rosa nutria, limpava e cercava de ternos cuidados a esperança de um dia vir floridos os seus sonhos e de colher o doce aroma do seu sofrimento: casar-se, gerar filhos, ter uma família que a amasse. Rosa desejava ser feliz...

Na verdade, muito mais que o sustento advindo do seu trabalho, Rosa sustentava-se de sonhos, porque neles repousava a esperança de um dia ser tratada com o cuidado que o seu nome evocava. Por essa razão, a jovem flor, mesmo sendo maltratada pelos espinhos que deveriam protegê-la, jamais perdera a doçura do sublime perfume do amor.

Por onde quer que passava, a sofrida Rosa oferecia perdão aos que lhe feriam, à semelhança de um certo galileu, crucificado, diante de seus algozes. Rosa exalava doçura aos que lhe oprimiam, assim como fez o homem de Nazaré, e dissipava generosidade – como é próprio de todo aquele que é tocado pelo Divino Amor –, perfumando outras vidas, mesmo àquelas que lhe roubavam os sonhos. E de vida roubada, de alma macerada pelos homens, a Rosa menina entendia muito bem.

Aos cinco anos de idade, Maria Rosa perdera seu pai, assassinado numa disputa de jogos de azar em meio a seus insaciáveis goles de brande na mesa de um bar. Pouco tempo depois, o homem a quem aprendera chamar de pai roubou-lhe a inocência. Rosa foi saqueada não somente de sua pureza, mas também do sonho de se entregar, casta, ao seu primeiro e verdadeiro amor.

Chegando a idade de debutar, a flor desabrochada, embora virgem em seu coração, ganhou de presente de seu padrasto – gerente da maior fazenda de rosas de toda a região da Vila do Prado – não uma festa nem um belo vestido, mas uma vida extenuante de trabalho. Como dizia o espinho mais severo de sua tênue existência, assim devia ser para que ela deixasse de ser apenas uma boca inútil dentro de casa, que não valia a comida que comia. Isso Rosa ouvia diariamente do homem que a criou e a amou como não se deve amar uma filha.

Mas isso ainda não é tudo.

O filho mais moço de seu padrasto, com a promessa de dar à menina um mar de rosas, apenas para exibi-la como mais um prêmio de sua antologia, propôs-lhe o noivado. O tenro talo resistiu. Mas resistiu para vir a desfalecer. Ao escutar dos lábios rosas de Rosa o agravo da recusa, o pretenso noivo, seu irmão, cravou-lhe o último espinho em seu coração, arrancando-lhe a última pétala de vida, disparando contra ela o tiro fatal da morte.    

A Rosa murchou para sempre. Ao ouvir o estampido do disparo, suspirou e morreu.

O amor por fim venceu! – pois o triunfo do amor não ocorre pelo poder da força, mas pela força do poder de amar, e amar até o fim, mesmo em face da morte. Se desejas amar, saiba que o teu destino será a vida que emerge da morte, mas que não ressurgirá se primeiro não morrer.  

Rosa, pecuniosa Rosa... por acaso pereceste por querer ser amada, cultivada e ter o mesmo direito de todas as demais rosas do vasto jardim da Vida, de poder viver e jubilosamente florescer? Não. Antes, floresceu, pois as mãos do Poeta que a cultivou a tornou mais viva, mais jubilosa.

Eis o poder do amor!     

Josué Argôlo

 

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